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O campo da psicologia coletiva fenomenológica na Dialética múltipla de Ernst Bloch

 

O campo da psicologia coletiva fenomenológica na Dialética múltipla de Ernst Bloch [i].

Notas sobre Pré-capitalismo e Crítica da Cultura Tradicional Do ponto de vista das regiões mais vinculadas ao medievo

Por

Jacob (J.) Lumier

Intenções insatisfeitas

No desenvolvimento da dialética complexa com múltiplos níveis a posição de Ernst Bloch é impar. Da mesma maneira em que Bachelar introduziu a dialética complexa na análise do pensamento científico e Gurvitch a estendeu para a sociologia, Ernst Bloch é o pioneiro da relativização da dialética na critica histórica.

Isto significa uma mirada em que, sem deixar de estar inserida em âmbito sociológico, a psicologia coletiva adquire um contorno diferencial específico, em conformidade com o ponto de vista da ultrapassagem da época de modernização capitalista acelerada nas regiões mais arraigadas no medievo.

Elaborando sobre os materiais da cultura histórico-social, onde os fatos são descobertos com a mediação dos relatos de época, legados artísticos, literários, teológicos e, em especial, a herança do pensamento histórico-filosófico, Ernst Bloch examina as obras de civilização em alternativa a Max Weber, a partir da percepção do princípio cultural situado não sob a mentalidade de acumulação capitalista, mas no horizonte da marcha do gótico tardio e das insurgências camponesas aos séculos XV e XVI, de onde Ernst Bloch coloca em perspectiva crítica as formas pré-capitalistas e a sobrevivência do tradicional na modernização.

A psicologia coletiva é ali examinada sob a autonomia relativa das superestruturas em conjunto, mas, posto que a crítica histórica com múltipla dialética opere uma análise não limitada à contemporaneidade, a qual, aliás, é posta em questão, Ernst Bloch elabora uma psicossociologia (fenomenológica) voltada para elucidar a comunicação existencial.

Incluindo nessa dialética aberta para a não-contemporaneidade dentro do processus histórico as imagens formadas de sonhos passados, a análise desenvolvida por Ernst Bloch alcança as coleções de indivíduos, aqueles quadros em estado incerto que ainda não se diferenciam como grupos reais, incapazes de configurar uma consciência coletiva clara das relações com os outros grupos e com a sociedade global [ii].

Por se tratar de comunicação existencial, e por diferença da função simbólica propriamente social de que já comentamos, os simbolismos ali enfocados revelam caráter estético, já que são escavados na experiência originária de uma racionalidade posterior, onde os símbolos contemporâneos se diferenciam como presenças intencionalmente introduzidas e invocadas para indicar carências.

Quer dizer, a psicossociologia posta em obra na crítica histórica da modernização, como contemporaneidade, busca o concretamente utópico por trás dos simbolismos, e constata que as formas pré-capitalistas jamais realizaram os conteúdos visados do solar, do solo, dos “de baixo”, de sorte que estes focos do tradicional na cultura já guardam desde o começo a qualidade de intenções insatisfeitas.

A análise inovadora desenvolvida por Ernst Bloch surge ao estudar os anos vinte em acelerada modernização capitalista na Alemanha. Trata-se da coincidência no momento exterior da contradição dialética do mundo da produção, a saber: o opor não-contemporâneo do homem típico da pequena burguesia tradicional – o “Pequeno Homem” – que coincide com as manifestações residuais da sociedade antiga, sem implicar isto em correlações funcionais com as formas pré-capitalistas.

O meramente afetivo e emocional

Com efeito, o estudo dos Anos Vinte por Ernst Bloch se desenvolve a partir da percepção da desagregação dos valores chevaleresques feudais em detrimento da pessoa dos camponeses [iii] como levando à afirmação do princípio cultural da Igreja.

Deste ponto de vista descobre-se uma profunda ambigüidade e certa complementaridade no processus de abertura do mundo moderno, acentuadas com a obra devastadora da revolução francesa ao fazer desmoronar por completo a superestrutura das relações econômicas do passado remoto (patriarcal e comunitário) [iv].

Em conseqüência, afloraram na abertura do mundo moderno as seguintes situações:

(1º) – que a burguesia afirmou a vontade individual ao lograr um poder político e (1a) que esta mesma burguesia, em câmbio, permaneceu debilitada inclusive no aspecto de crença e reconhecimento público do seu modo de ser;

(2º) – que, nas regiões do mais tenaz reduto do medievo, como a Alemanha, esse Eu externamente liberado e a ascensão capitalista levaram não ao poder político, mas ao fracasso da vontade individual e à falta de escrúpulos do Estado autoritário. Surgido este, por sua vez, na seqüência de inumeráveis príncipes pavorosamente emancipados todos eles e na base da ausência de unidade econômica combinando-se à falta no país de maturidade política e à inexistência de uma entidade jurídica.

(3º) – com o desmoronamento da superestrutura de relações econômicas de um passado remoto, os demais países perderam a mentalidade comunitária;

(4º) – na Alemanha, essa mentalidade comunitária e até mesmo a profundidade do sentimento de interioridade herdado do gótico tardio e do afundamento na consciência coletiva do tabu sacramental, se subtraindo ao fracasso político, foram se refugiar no âmbito do meramente afetivo e emocional [v], aquém de toda a indispensável reciprocidade de perspectivas característica dos grupos reais – daí a psicologia coletiva fenomenológica típica do Pequeno Homem e o concretamente utópico, que sobressaem nas observações de Ernst Bloch sobre os anos vinte.

***

 

Primeira Parte

A tendência refratária ao ethos moderno, o homem tradicional do campo e a juventude.

Na análise crítica da cultura tradicional oferecida por Ernst Bloch se põe em relevo que a busca do existente, do diverso, do homem obnubilado [vi] como material artístico se efetua através da constatação de uma tendência refratária ao espírito da máquina e da racionalização.

O primeiro passo no estudo dessa tendência refratária atuando no capitalismo tardio da Alemanha dos Anos Vinte se faz a partir da descrição de certas espécies de vida social mais facilmente observadas por sua dificuldade de integração na modernização acelerada.

Para este fim, a análise utilizará com alcance sociológico a noção de espécie, aproveitando a procedência biológica deste termo que guarda o elemento muito antigo do ancestral.

Como conjunto ou coleção de indivíduos que se reproduzem, as espécies sociais se afirmam no campo micrológico da realidade da cultura não por um caráter coletivo, mas sim pela reprodução de um elemento muito antigo, ancestral, o caráter coletivo sendo tirado dos conjuntos mais amplos na superfície, em relação aos quais os primeiros diferenciam exatamente como espécies.

Uma espécie recomeça sempre e vem de muito longe, remarcando no homem tradicional do campo [vii] essa última qualidade de “vir de muito longe” (no sentido originário da história), enquanto a qualidade de “recomeçar sempre” é reservada à juventude, a qual será estudada, sobretudo no interior da classe burguesa [viii].

A atitude objetiva moderna da juventude burguesa na Alemanha dos Anos Vinte naquele tempo em ausência de intenção se mostrará apenas exterior.

Com efeito, a atitude objetiva moderna da juventude burguesa na Alemanha dos Anos Vinte, naquele tempo em ausência de intenção [ix] se mostrará apenas exterior. Ao invés do apego moderno ao pensamento analítico e aos cálculos, o que se observa é o antigo gosto das qualidades viris conquistadas do vigor e da franqueza; é o estilo apaixonado e ardente que aparecem mais fortes e valem mais do que as doutrinas.

Nota-se que as palavras exaltantes parecem mais exatas à juventude do que as palavras investigativas; os costumes parecem mais belos do que as cidades em modernização.

Os sonhos passados, compreendidos no sentido de atividade onírica in-dormida [x], se associam na juventude à inquietação orgânica de maneira propícia aos movimentos de exaltação personalista, como eram aqueles movimentos alheios à modernização compostos pela montage na burguesia [xi].

O modo de ser dos adolescentes leva-os a formar facilmente seus clubes procurando fazer amigos e buscando sobretudo um pai que frequentemente não é o seu verdadeiro pai, no sentido de comungar nos mesmos ideais. Os jovens eram seduzidos pela imagem feudal do herói chevaleresque das antigas ordens estamentais de chevalerie.

Portanto, tendo em conta os fanatismos de que era pródiga a Alemanha dos Anos Vinte, a análise crítica da cultura tradicional irá buscar nesse modo de ser dos adolescentes o exemplo que serve para compreender como a juventude era fácil de seduzir para ingressar em pequenos grupos com um líder conhecido no topo.  Por esta via, destaca-se a facilidade dessa juventude burguesa alemã em deixar-se seduzir para participar em associações com juramento de sangue como então havia e aparecia como anormal para a grande burguesia.

Em sua obra “Le Príncipe Espérance”, a função utópica é estabelecida no conhecimento filosófico como pulsão imprescindível à autoconservação, sendo a partir dessa compreensão que Ernst Bloch a classificará na extensão do desejo de ser mais bem aquinhoado, o qual resta em fato e necessariamente irrealizado no estado de atenção, base fenomenológica de toda a comunicação existencial.

Quanto ao exame na paysannerie germânica dessa tendência refratária ao ethos da máquina e da racionalização será não a inquietação orgânica seduzindo para a exaltação personalista, que acabamos de ver em relação à juventude, mas antes o apego ao solo antigo que se imporá como elemento ancestral.

Neste ponto cabe sublinhar o alcance filosófico das análises em exame. Trata-se de estabelecer a eficácia diferenciada em nível das superestruturas dos sonhos passados como atividade onírica in-dormida e, por esta via, preparar o estudo da função utópica.

Com efeito, no realismo estético a função utópica é enfocada como qualidade que em estado de princípio cada ser humano pode encontrar nos Nós que apreende em sua sociabilidade e que por este mesmo estado de princípio, isto é, por aspiração, a arte pode pôr no horizonte que lhe é essencial.

Em sua obra de 1954, intitulada “Le Príncipe Espérance[xii], a função utópica é estabelecida em conhecimento filosófico como pulsão imprescindível à autoconservação, sendo a partir dessa compreensão que Ernst Bloch a classificará na extensão do desejo de ser mais bem aquinhoado.

Por sua natureza gestante, o desejo de ser mais bem aquinhoado jamais se completa, é permanente em sua não-complementação, restando em fato e necessariamente irrealizado no estado de atenção, base fenomenológica de toda a comunicação existencial [xiii].

Em consequência, paralelamente às imagens simbólicas ideais em que a sociologia estuda a moralidade ideológica, haverá que distinguir aquelas outras que, ultrapassando-as, devem ser compreendidas como imagens-aspiração (o herói chevaleresque, as formas góticas dos mobiliários, solares e mansões rústicas, por exemplo). Nestas se incluem as imagens formadas de sonhos passados, as imagens diferenciadamente formadas pelo elemento onírico da arte que integram o ideal estético realista ou entelequial (no sentido de causa final originária), sendo exatamente os sonhos passados que segregam o critério para a não-contemporaneidade.

 

O problema crítico da cultura tradicional é saber a que se deve o enraizamento obstinado da paysannerie germânica como espécie social com lastro na ambiência cultural do gótico tardio legado dos séculos XV e XVI [xiv].

Todavia, não se pensa que os conhecimentos sociológicos restam desatendidos na abordagem pelas imagens-aspiração do gótico tardio. A análise da paysannerie germânica (campagnard) tem conta daqueles bem conhecidos aspectos sociológicos relevantes da sobrevivência do modo de produção pré-capitalista, tais como: ser a paysannerie uma classe possuidora dos próprios meios de produção; utilizar ela as máquinas agrícolas fazendo-o, porém no quadro antigo extensivo à herdade, ao solar e à terra de semeadura ao seu redor; o desconhecimento em tal ambiência tradicional da figura do fabricante capaz de introduzir o ofício de tecer mecânico e as atividades manufatureiras correspondentes; neutralização das oposições econômicas entre explorados e exploradores devido ao desempenho do papel de patriarca ativo pelo paysan rico apesar das diferentes relações de propriedade, etc.

Se estes aspectos têm validade para acentuar ou reforçar a tendência refratária à modernização não definem por si sós o conteúdo não-contemporâneo autêntico da paysannerie germânica nem explicam completamente o sentimento dos paysans alemães de representarem um estamento em permanência, relativamente unido.

O problema crítico da cultura tradicional é saber a que se deve o enraizamento obstinado da paysannerie germânica como espécie social com lastro na ambiência cultural do gótico tardio legado dos séculos XV e XVI.

Quer dizer, o enraizamento obstinado da paysannerie germânica deve ser compreendido como se afirmando no exterior da propriedade dos meios de produção pré-capitalistas e como originado da própria matéria trabalhada pelos paysans, aquela matéria que os entretém e os alimenta em modo imediato. Deve ser compreendido como parte do seu próprio corpo, a saber: os paysans das regiões mais vinculadas ao medievo são colados no solo antigo e no ciclo das estações.

Tal o conteúdo autenticamente não-contemporâneo da tendência refratária à modernização na paysannerie germânica que servirá inclusive como referência para explicar a persistência da forma gótica.

Além de uma mentalidade cheia de uma velha desconfiança afirmada no idiotismo, no embotamento, na tradição do costumeiro e da fé, o senso de ser ligado no solo, na herdade e no solar rústico, e o individualismo do paysan germânico, mostram a persistência da forma gótica nas mansões, nos móveis e nos costumes campesinos como realidades da cultura [xv].

***

Segunda Parte

A Psicologia fenomenológica do tradicional na cultura.

Se o tradicional configura um campo estético diferenciado no âmbito das superestruturas deve o mesmo ser examinado no processo histórico em sua oposição ao tempo presente do capitalismo dos Anos Vinte, isto é, na tendência refratária à modernização acelerada.

Desta forma, a análise por Ernst Bloch, em realismo estético, vai mais longe do que o exame de correlações entre a tendência refratária à modernização e as formas pré-capitalistas sobreviventes.

Buscando as manifestações dos sonhos passados como elementos oníricos in-dormidos e artísticos do tradicional na cultura, põe-se em relevo a eficácia estético-sociológica das imagens da interioridade apaziguante que têm por focos o solar, o solo, os de-baixo [xvi].

Numa abordagem de estratificação social, descobre-se a psicologia coletiva (fenomenológica) dos de-baixo como relacionada à figura do pequeno homem e abrangendo neste tipo os seguintes elementos: (a) a camada, ou melhor, a capa[xvii] dos empregados definida por distância social em relação aos peões de fábrica; (b) a pequena burguesia antiga, empobrecida em conseqüência do progresso das corporações e por isso decepcionada.

Por esta via, se distinguem inicialmente duas situações:

Primeiro ponto: as imagens aparentemente relevantes dos determinismos sociais das formas pré-capitalistas.

Observadas por distinção das imagens da interioridade apaziguante, as imagens que parecem relevar das formas pré-capitalistas atendem em realidade ao tipo do pequeno homem que perdeu posição e aspira a recuperar o dinheiro perdido, que nelas se encontra de soslaio, furtivamente, mas, em fato, está integrado no tempo presente do capitalismo.

Se este pequeno homem oblíquo pode vir a integrar as fileiras do fanatismo, do anormal, não será em modo definitivo posto que bastará sua situação econômica melhorar para que ele deixe de ser brutal.

Observado sobre um fundo de desvario e entontecimento, destaca-se que a modernização intensa trouxe ao pequeno homem a embriaguez da distração na mesma proporção em que acentuou a confusão de medo e piedade [xviii].

Na psicologia coletiva das figuras da ambiência tradicional em focos nos Anos Vinte, o pequeno homem oblíquo não deseja outra coisa que tornar a ser doméstico e recuperar sua sujeição a um senhor feudal, buscando a obediência com apego à ordem e hierarquia.

►Entretanto – este é o segundo ponto – toda a outra coisa são as imagens da interioridade apaziguante no sentido de harmonização, afirmadas pelo tipo do pequeno homem no curso de sua experiência da modernização como entontecedora, mas que, no contexto dos Anos Vinte, têm procedência recente se comparadas ás imagens feudais de busca da obediência.

Constata-se que as imagens da interioridade apaziguante, embora revelem um apelo que não atrai vantagens ou recompensas, como as da obediência atraem, são todavia representadas como imagens que já aparecem desgastadas, desbotadas, desanimadoras.

Dessa maneira cabe classificar no primeiro ponto as imagens em que o pequeno homem vê a si mesmo em seu atraso cultural e social como integrante do capitalismo.

No segundo ponto, cabe classificar as imagens diferenciadas em que o pequeno homem simplesmente não se vê, não vê onde ele está, embora ele esteja totalmente no tempo presente do capitalismo, só que ele aí está em maneira amesquinhada e anestesiada.

Mas não é tudo e o esquema da análise não é assim tão simples. Ernst Bloch empenha-se em busca do campo estético como o concretamente utópico. Como disse as formas passadas ou pré-capitalistas jamais tornaram realizados em fatos os conteúdos visados do solar, do solo, dos de-baixo, de sorte que estes focos do tradicional na cultura já guardam desde o começo a qualidade de intenções insatisfeitas.

Além disso, notando que estas intenções insatisfeitas passam ao longo da história por contradições veladas, Ernst Bloch as examinará desde a colocação em perspectiva filosófica, para além da psicologia representacional, tratando-as como conteúdos intencionais não ainda trazidos à luz do passado na realidade da cultura, o que o levará a definir o campo estético em eficácia como o concretamente utópico.

A partir dessa orientação dialética em profundidade torna-se possível penetrar na psicologia fenomenológica do tradicional.

►A análise descobrirá então o seguinte: (a) que foram extintos os deveres, os ramos da cultura e estado mental da antiga pequena burguesia; (b) que, oculto sob essa extinção, o pequeno homem se ressente da falta de alguma coisa habitual, psíquica, móbil, e (c) – que este algo habitual em falta não é uma coisa somente econômica, mas é uma carência profunda que no seu ser ele opõe ao tempo do capitalismo.

Entrementes, a análise passa a um grau maior de complexidade ante a constatação de uma coincidência na afirmação deste opor ou contrapor no ser do pequeno homem ao tempo mesmo do capitalismo.

►Ou seja, o opor dessa ausência ressentida é afirmada desde o âmbito interior do sujeito em feição apática e morna, enquanto no âmbito da vida exterior é afirmada junto com os vestígios estranhos inseridos no tempo presente do capitalismo, é afirmada coincidentemente com os vestígios dos tempos antigos pré-capitalistas que restaram.

Daí, dessa coincidência complexa decorre certas características da psicologia fenomenológica do tradicional, como psicologia em ausência de móbil, que em realidade configuram as características do campo estético.

Com efeito, o problema da análise é como disse a coincidência no momento exterior: o opor não-contemporâneo do pequeno homem que coincide com as manifestações residuais da sociedade antiga, sem implicar isto em correlação funcional com as formas pré-capitalistas.

Desta forma, posto não haver correlação funcional, Ernst Bloch assinalará não só a ausência de equilíbrio da carência profunda contraposta neste opor a ausência ressentida, por isso designado opor não-contemporâneo, mas classificará igualmente desequilibrada a contradição mesma em opor tal carência profunda.

Isto será feito por duas razões, seguintes: (a) porque essa notada contradição encontra-se em desalinhamento com as formas pré-capitalistas residuais; (b) – porque essa notada contradição constitui o fator de ativação dessa outra contradição interligada que é a modernização – em contradição com a consciência da sociedade antiga, funcionalmente correlacionada esta sim àquelas formas pré-capitalistas.

Caso este que, por exemplo, é observado na consciência do camponês lá onde o campesinato (campagnard) se percebe a si próprio como um estamento, à feição dos grupos tradicionais que caracterizaram as ordens feudais de chevalerie.

Mas não é só a explicitação dessa consciência extemporânea que a constatação da coincidência complexa nos apresenta. A carência profunda contraposta e a contradição no opor não-contemporâneo do pequeno homem comportam variação conforme a colocação em perspectiva do shock histórico no quadro social mais amplo no qual ele está inserido.

Acrescente-se que o caráter desalinhado da não-contemporaneidade dessa psicologia fenomenológica, sendo proveniente de antigas intenções insatisfeitas, deixa transparecer o que Ernst Bloch classifica como sentimento de cólera recalcada: um rancor excluído do campo consciente, mas permanecendo intacto em sua força na vida psíquica dos indivíduos.

Na medida mesmo desse transparecer são notados os dois eixos de variação da não-contemporaneidade dessa psicologia de ausência de móbil, a saber:

(a) – em época apaziguante essa cólera recalcada mantém-se próxima da feição apática e morna com que a ausência ressentida do algo habitual em falta afirma-se subjetivamente podendo, todavia aparecer ou como atitude exasperada ou como atitude meditativa, mas em todo o caso uma atitude daquele que se recolhia na intimidade de uma vida social que ele não mais acompanhava;

(b) – entretanto esta configuração se altera sob a época desordenada da modernização/industrialização acelerada dos Anos Vinte na Alemanha como região mais enraizada no medievo e o recalque poderá então irromper como a rebelião da cólera retida, notada exatamente a partir da ativação não só da consciência coletiva de outra época, antiga, mas da ativação do próprio ser coletivo que lhe é subjacente.

Segundo Ernst Bloch – e este será o coroamento do momento inicial da análise em busca do campo estético como o concretamente utópico que expusemos nos parágrafos anteriores – tal potência daquela psicologia coletiva em ausência de móbil deve ser interpretada a partir dos rastros e das lacunas de certa expressão romântica (que nosso autor descreverá em certas formas literárias, como veremos).

Ou, no dizer do próprio Ernst Bloch, deve ser interpretada tomando por base a constatação de que a pequena burguesia tradicional embeleza no presente do capitalismo o passado cultural, ela opõe a tal presente suas antigas aspirações não realizadas misturadas ao melhor relativo do passado.

Entretanto, este embelezar estético do passado tem um componente trágico que é concretamente utópico. Componente este que não é limitado ao fato de que o melhor relativo embelezado são os aspectos das formas pré-capitalistas cujos vestígios estão ultrapassados no presente do capitalismo em modernização.

Por esta via, o componente trágico no embelezar do passado que é também um componente concretamente utópico põe em relevo o modo do opor do pequeno homem como sendo um modo não-contemporâneo porque se trata de um opor afirmado em face de um tempo presente no qual até mesmo a última satisfação também desapareceu [xix]. Tal o concretamente utópico que define o campo estético em eficácia diferenciado no âmbito das superestruturas ao século XX para as regiões mais enraizadas no medievo.

***

Etiquetas:

Dialética, sociologia, movimentos campesinos, modernização, formas pré-capitalistas, análise fenomenológica, classes subalternas, ambiência tradicional, psicologia coletiva, anos vinte.

©2008/2010 by Jacob (J.) Lumier

Fim do artigo: “O campo da psicologia coletiva fenomenológica na

Dialética múltipla de Ernst Bloch”.

***

[1]


[1]


[i] Texto de Artigo Anexado ao ensaio “Dialética e Consciência Coletiva” http://es.scribd.com/doc/52059337/Dialetica-e-Consciencia-Coletiva

[ii] Ver nesta obra o artigo “A Psicologia Coletiva na Estratificação Social“.

[iii] Em detrimento da pessoa do homem do campo porque a sujeição a um senhor feudal implicava obediência com apego à ordem e hierarquia revestidas de caráter eterno.

[iv] A superestrutura correspondente ao tradicional Sacro Império Romano Germânico.

[v] Cf. Bloch, Ernst: Thomas Münzer, Teólogo de la Revolución, op. cit, pág. 200.

[vi] O homem obscurecido, ofuscado, sem luz no sentido contrário à época das luzes, quando prevalecia a confiança do homem nos empreendimentos do homem.

[vii] O homem do campo (campagnard) estudado por Ernst Bloch, dado seu distanciamento do moderno, está em um tempo bem diferente da paysannerie francesa, mas tem em semelhança o conteúdo econômico objetivo dos conflitos verificados no século XVI nas terras germânicas.

[viii] Bloch, Ernst: Héritage de ce Temps (“Erbschaft dieser Zeit”, Zürich, 1935), tradução de Jean Lacoste, Paris, Payot, 1978, 390 pp. Cf. págs. 96, 97 sq.

[ix] Na Alemanha dos Anos Vinte, as combinações ab-normais na burguesia declinante exprimem o vazio do mundo preenchido pelas coincidências de uma história dos fenômenos, na qual, descrevendo um tempo em ausência de intenção, Ernst Bloch descobre uma fenomenologia que, por não ser a boa, servirá de alavanca para a boa, prestando também certa maneira de assegurar a antiga cultura (gótico tardio).

[x] Ademais dos elementos do desencadeamento e do conteúdo do conflito que são de ordem econômica, o tradicional dentro do processo histórico é examinado como marcha do gótico tardio na referência das insurgências campesinas e do milenarismo que as anima no século XVI na Alemanha, como crença real. Neste marco, as afeições, as emoções sérias e puras, os entusiasmos projetados para um fim e os sonhos que configuram o milenarismo como crença real, são designados em conjunto por Ernst Bloch como o onírico in-dormido, e constituem um nível fenomenológico diferenciado que se descobre como legado do passado na profundidade do sentimento em foco na realidade estética da cultura em modernização acelerada aos anos vinte.

[xi] No enlace da burguesia e da cultura o relativismo anuncia a fissura na superfície fechada da realidade favorecendo a montage no sentido das combinações ab-normais da grande burguesia com os movimentos culturais alheios à modernização na industrialização.

[xii] Bloch, Ernst: Das Prinzip Hoffnung, 3 vol., Berlin 1954/1955/1959. Versão francesa: “Le Principe espérance”, vol. 1, Paris, Gallimard, Bibliothèque de philosophie, 1976.

[xiii] Para Ernst Bloch a atenção é uma categoria do conhecimento com lastro na filosofia fenomenológica de Hegel. A atenção é operação cognitiva da realidade sensível levando a tornar a si mesmo tudo o que ainda é exterior no homem e no objeto, contém a negação do ato de se fazer si mesmo valer e do ato de se dar si mesmo ao seu assunto. Implica uma atitude de devoção ao mundo, uma decisiva orientação para fora. Cf. Bloch, Ernst: “Sujet-Objet: Éclaircissements sur Hegel”, Paris, Ed. Gallimard, 1977, 498 pp.; Tradução por Maurice de Gandillac (“Subjekt-Objekt. Erläuterungen zu Hegel”, Frankfurt, Surhkamp, 1962; 1º edição em alemão: 1951).

[xiv] Acima das regiões e dos regionalismos de alguns historiadores, Ernst Bloch elabora com razão uma visão de conjunto das insurgências campesinas aos séculos XV e XVI, situando-as em modo justo com referência ao mesmo quadro global da desagregação do Sacro Império, à história das heresias milenaristas e ao comunismo de base cristã com foco na cidade-acampamento de Tabor, relacionando a esta última o surgimento de Munster como cidade propriamente adventista.

[xv] Cf. Bloch, Ernst: Héritage de ce Temps, op. cit, pp. 98, 99.

[xvi] Cf. Ibid, ibidem, págs.103, 107 sq, 111.

[xvii] Não esquecer que se tratam como disse de coleções de indivíduos e não grupos reais, daí “capa”.

[xviii] Sobre a confusão de medo e piedade, ver meu artigo A arte da Montage e a Modernização, in “O Tradicional na Modernização: Leituras sobre Ernst Bloch” http://www.oei.es/salactsi/ErnstBloch.pdf

[xix] Cf. Bloch, Ernst: Héritage de ce Temps, op. cit, pp. 108.

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