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Introdução à Leitura de Thomas Mann

Sociologia da Literatura – II: a ideologia do existente na leitura de Thomas Mann.

Por

Jacob (J.) Lumier

INTRODUÇÃO:

FORMA ROMANESCA E ESTRUTURA LITERÁRIA

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A forma romanesca tem sua vertente no romantismo, tanto que sociólogos notáveis como Lucien Goldmann recorrem à classificação de Goethe para situar o marco do avanço da forma romanesca no fim do período poético.

Na leitura de Ernst Bloch[1] observamos que a análise da contradição contemporânea põe em relevo a aspiração ao homem completo como a forma de alguma coisa que falta e que se descobre na esperança histórico-filosófica. Sobressai igualmente a pesquisa do concretamente utópico constatado nas superestruturas da intensa modernização e acelerado crescimento industrial dos anos vinte na Alemanha. Essas linhas aportam luzes não só para a sociologia da literatura, mas, particularmente, favorece a compreensão do romance como forma literária específica do mundo moderno, notadamente em relação à produção de avant-garde.

O romance corresponde ao desenvolvimento da sociedade burguesa e do mundo capitalista na medida em que põe em obra a história de uma busca, uma aspiração implicando uma biografia individual. Todavia, como se sabe, o imenso progresso da forma romanesca no século XIX constitui um indicativo seguro do fenômeno superestrutural da reificação, notado inclusive no plano da composição, onde a biografia individual nutrida de aspiração enseja a forma romanesca exatamente não só porque deve necessariamente decepcionar, mas porque segrega as razões de sua degradação em crônica social.

Com efeito, a forma romanesca tem sua vertente no romantismo, tanto que sociólogos notáveis como Lucien Goldmann recorrem à classificação de Goethe para situar o marco do avanço da forma romanesca no fim do período poético, onde o criador se sentia ainda em acordo com a sociedade, onde a arte e a literatura passavam por ser uma criação natural – concepção esta atribuída ao notável poeta romântico do século XVIII Schiller [2], igualmente defensor da poesia histórica.


[1] Ver: Lumier, Jacob (J.): “O Tradicional na Modernização” : Leituras sobre Ernst Bloch, Web da OEI, Maio de 2009, pdf  130 págs.

[2] Friedrich Schiller (Johann Christoph), 1759 – 1805.

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Vale dizer, a forma romanesca nos escritores como Balzac, Stendhal, Flaubert, Zola, Malraux, Thomas Mann, Pasternak, etc., estes já no século XX, os permitiu colocar em obra ao mesmo tempo o problema da busca do humano em um mundo que lhe é contrário e descrever a essência deste mundo inóspito[3].

A compreensão sociológica do romance em nível de superestruturas assenta-se em dois campos de pesquisa, seguintes: (a) – pesquisar o romance como o único gênero literário no qual a ética do romancista torna-se um problema estético da obra; (b) – pesquisar a relação entre a forma romanesca ela mesma e a estrutura social na ambiência da qual se desenvolveu, isto é, as correlações do gênero romance com a sociedade individualista moderna [4]·.

Admitindo que valores ideais autênticos encontram-se implícitos no horizonte do romancista, onde permanecem abstratos e constituem o caráter ético, surge o problema de saber como se faz que esses valores venham a se tornar elementos essenciais de uma obra artística literária como o romance.

Afirma-se inicialmente a compreensão de que a literatura romanesca se desenvolve com relativa autonomia tanto em relação à consciência real quanto à consciência possível de um agrupamento social particular. Isto porque houvera uma transposição direta da vida econômica nessa criação literária. Ademais, do ponto de vista da relativa autonomia, se constataria igualmente nas sociedades de mercado uma modificação significativa do estatuto das consciências individual e coletiva.  Em modo implícito, essa modificação se estenderia ao campo sociológico das relações entre infra e superestruturas, de tal sorte que os paralelismos entre as estruturas econômicas e as manifestações literárias romanescas teriam lugar no exterior da consciência coletiva [5].

Desta forma, aprofundando no individualismo e elaborando para além do âmbito de toda a comunicação social, a teoria psicossociológica de Lucien Goldmann pauta-se na pesquisa daquela “modificação radical” nos níveis superestruturais.

Admitindo que valores ideais autênticos encontram-se implícitos no horizonte do romancista, onde permanecem abstratos e constituem o caráter ético, surge o problema de saber como se faz que esses valores venham a se tornar elementos essenciais de uma obra artística literária como o romance.

Indagação esta procedente na medida em que as idéias abstratas não têm lugar em uma obra artística literária, onde constituiriam elemento heterogêneo, só podendo ser afirmadas, entretanto, sob o modo de uma ausência não temática, ou presença degradada.

Com efeito, para esta pesquisa dá-se prioridade exclusiva à situação dos escritores que buscam pôr em obra uma visão individualista com mirada universal, tendo por base o próprio contexto de crise do individualismo, que marca a segunda metade do século XIX.

Admite-se uma distinção fundamental entre a obra propriamente literária e os escritos conceituais. Quer dizer, a possibilidade para o escritor fazer obra literária, criar universos imaginários concretos com mirada realista revela-se estreitamente ligada à certeza de sua aspiração, à fé em valores humanos afirmados como universalmente acessíveis a todos os homens.

Por sua vez, os escritos conceituais revelam-se corresponder pelo contrário à ausência de fé na aspiração assumida, seja sob a forma da desilusão ou de uma “elite criadora” [6].

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A teoria Psicossociológica e o Individualismo

O tema da pressão da ação, implicando a imposição de fins e objetivos no mundo, constitui o aspecto central da situação psicossociológica dos escritores burgueses engajados em pôr em obra literária romanesca uma visão individualista.

Podemos então observar que, ao afirmar a percepção diferencial da certeza de uma aspiração criadora na base da obra literária, a teoria psicossociológica de Lucien Goldmann reconhece o elemento postulativo histórico-filosófico de que nos falou Ernst Bloch.

Por outras palavras, a afirmação da fé na aspiração assumida, como critério diferencial na teoria psicossociológica de Lucien Goldmann, deve ser relacionada à noção de utopia positiva ou esperança utópica, já que revela em sentido amplo a compreensão do foco criador constitutivo dos valores ideais humanos como vontade de paraíso, à qual Ernst Bloch referiu “o retorno do mais antigo sonho (atividade onírica indormida)”.

Não que este paralelo sirva simplesmente para indicar afinidades intelectuais. É mais do que isto. Com efeito, ao diferenciar a vontade de paraíso na acessibilidade dos valores qualitativos, Ernst Bloch configura a mirada que traz um aprofundamento do fenômeno da reificação e viabiliza em nível de postulado a observação e descrição da realidade crítica mais contundente para o individualismo.

Ou seja, a mirada da vontade de paraíso, por seu alcance histórico-filosófico, põe em relevo a ideologia do existente, o agarramento à vontade de viver como pressão específica ressentida pelo indivíduo, ordinariamente confundida a uma projeção do princípio de autoconservação individual, mas que, em maneira outra, limita-se a subordinar o viver à vontade mundana, penetrada esta que é pela ação em sua racionalidade moderna como meio de mero prestígio, portanto, embebida no apelo do êxito e identificada à própria busca de fins no mundo.

Sobressai, então, que o tema da pressão da ação como tal, implicando a imposição de fins e objetivos no mundo, constitui o aspecto central da situação psicossociológica dos escritores burgueses engajados em pôr em obra literária romanesca uma visão individualista. Além disso, penetrará em todos os modelos de romance.

Mas não é tudo, Ernst Bloch tira de Schopenhauer que a vontade de viver existe, é verificável, mas não deveria existir, não é verdadeira, no sentido em que, na tradição literária, fala-se de “verdadeira tempestade” ou se reconhece um “verdadeiro amigo” [7]. Quer dizer a vontade de viver não se afirma carregada de densidade afetiva, mas é meramente existente, está aí.

Desta forma, na pesquisa dos paralelismos entre as estruturas econômicas e as manifestações literárias, constatados no exterior da consciência coletiva, podemos destacar a observação da ideologia do existente sendo diferenciada como tendência substitutiva imbricada no pensamento reduzido às relações de mercado, identificado aos valores de troca.

Contemplando a categoria da mediação como introduzindo em nível implícito uma modificação radical nos termos da oposição infra-estrutura/superestruturas, a teoria psicossociológica põe em relevo a partir do comportamento econômico dos indivíduos uma tendência para substituir o pensamento conformado aos valores de troca.

Ou seja, podemos notar a ideologia do existente sendo diferenciada nessa tendência substitutiva como viabilizando na prática a virtual falsa consciência total, na qual o valor mediador torna-se valor absoluto e o valor mediado desaparece inteiramente.

Como se sabe no estudo do romance ao século XX constatou-se, por um lado, a transformação da unidade estrutural personagem/objetos como levando não somente ao desaparecimento mais ou menos acentuado do personagem, mas, correlativamente, acentuando o reforço da autonomia dos objetos.

Constatação esta que logo faz lembrar a observação de que as estruturas auto-reguladoras da economia de troca levam ao deslocamento progressivo do que Lucien Goldmann chamou coeficiente de realidade do indivíduo cuja autonomia e atividade são transpostas para o objeto inerte. Ora, acontece que, na prática, a viabilidade dessa redução da realidade do indivíduo para o objeto inerte passa pela ideologia do existente [8].

Por contra, será da acessibilidade dos valores humanos, na medida em que incluem o elemento postulativo já mencionado; serão das constatações de suas condições e possibilidades para o indivíduo em face da ideologia do existente, bem como das atitudes do escritor a respeito disto, que a teoria psicossociológica se desenvolverá. Daí o maior interesse sobre os escritores burgueses. Todavia, não significa minimizar a composição de seus personagens, já que na arte composicional se tece justamente o móvel do escritor romancista, sua aspiração, tanto mais que no romance a ética do autor, sua experiência ambivalente do individualismo, torna-se ou deve se tornar o elemento estético da obra.

Compreende-se desta forma que os escritores e os artistas sejam provenientes de certo número de indivíduos cujo pensamento e conduta permanecem orientados por valores qualitativos sem que, todavia, consigam subtrair-se inteiramente à existência da mediação degradante. Daí sentirem parcialmente o efeito daquela tendência substitutiva para a falsa consciência em sua ligação à qualidade de sua obra.

Na medida em que aprofunda o estudo do móvel do escritor, a teoria psicossociológica assinala a probabilidade de que o gênero romanesco tenha surgido como expressão não só de um descontentamento afetivo não conceituado, mas da subjacente aspiração à mirada direta dos valores qualitativos.

Vale dizer, a acessibilidade dos valores assim em aspiração constitui o princípio de figuração dos personagens, afirmando-se em conseqüência como a referência central do desenvolvimento da forma romanesca. No estudo histórico do romance as modalidades que se diferenciam são detectadas com prioridade em torno da possibilidade e das condições da biografia individual, relevando para segundo plano a importância das crônicas sociais como critério diferencial, as quais complementam a busca biográfica como elemento composicional.

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O Estudo dos Modelos de Romance em Sociologia.

Segundo Goldmann podem distinguir-se os seguintes tipos ou modelos de romance: (a) – o romance com herói problemático individual; (b) – o romance com herói problemático coletivo; (c) – o romance com ausência de sujeito, correspondendo este à literatura de avant-garde.

Do ponto de vista da teoria psicossociológica, a biografia como elemento composicional se desenvolveu a partir da moralidade das imagens simbólicas ideais do individualismo, formadas historicamente em correspondência com o mercado concorrencial, incluindo as imagens de liberdade, igualdade, propriedade e seus derivados como tolerância, direitos do homem, desenvolvimento da personalidade [9].

Nada obstante, nesse aspecto composicional a biografia tomou a forma do herói problemático, um personagem que por seu pensamento e atitude é vinculado aos valores qualitativos, mas não inteiramente subtraído à existência da mediação degradante, como já mencionado.

Serão das variações na composição da forma da biografia assim verificada que se tirarão os critérios para classificar as modalidades do romance em termos de estrutura do gênero romanesco. Segundo Goldmann podem distinguir-se os seguintes tipos ou modelos de romance: (a) – o romance com herói problemático individual; (b) – o romance com herói problemático coletivo; (c) – o romance com ausência de sujeito, correspondendo este à literatura de avant-garde [10].

Note-se que o caráter problemático releva não só da experiência do escritor em face da mediação eticamente degradante, mas da própria contradição interna do individualismo.

Isto é, chama-se crise do individualismo à contradição seguinte: se, por um lado, a afirmação da centralidade e desenvolvimento do indivíduo é posto em si, como valor universal, por outro lado a realidade social da burguesia impõe limitações importantes e peníveis às possibilidades de desenvolvimento dos indivíduos, percebidas como alternativas excludentes e sem saída [11].

Deste ponto de vista, a biografia sob a forma do herói problemático põe em relevo o parentesco do gênero romanesco e da tragédia moderna no teatro de Racine.

Desdobrando-se em torno da tomada de consciência expressa na atitude do herói, pela qual vem a ser afirmado o caráter sem saída de uma situação, deste modo ressentida como trágica em relação a alternativas contraditórias exigidas como absolutas, no teatro de Racine o caráter trágico não é posto somente como algo que se manifesta meramente.

Segundo Goldmann, o trágico é produzido, assimila um salto, uma passagem de nível na experiência vivida do sujeito, e se afirma a partir de um instante singular em que a tomada de consciência é possível e se viabiliza. Ademais, é preciso ter em conta a razão pela qual a tragédia se configura justamente pelo caráter inteiramente consciente e intelectualizado das alternativas contraditórias e absolutas exigidas. Ou seja, se tais exigências já não podem mais ser exprimidas em termos de desejos ou aspirações, mas unicamente em termos de escolha e ação é porque tais alternativas foram necessariamente e previamente vividas integralmente pelo herói.

Por outras palavras, no instante da tomada de consciência trágica, se o caráter vago, não intelectualizado, puramente vivido e sentido desaparece, para ser integrado no universo atemporal de clareza absoluta e univocidade da tragédia, é necessário que, antecipadamente, tenha existido realmente o caráter poético incerto de tais aspirações tornadas alternativas absolutas.

Quer dizer, sendo encontrado na biografia individual romanesca, à base da decepção necessária informando a busca do herói, que por isso é problemático, o esquema racineano da tragédia moderna formula-se pela combinação dos dois níveis acima observados: (a) – a escolha refletida, com tomada de consciência rigorosa, trágica; (b) – os valores “re-sentidos”, as aspirações que precedem imediatamente o nível intelectualizado [12]·.

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Os Níveis de Acessibilidade dos Valores Qualitativos.

Para observar o problema recorrente da acessibilidade dos valores humanos não basta enfocar o engajamento do escritor em dar uma significação à vida, mas é preciso proceder à recuperação dos níveis em que a acessibilidade pode ser distinguida.

Na teoria psicossociológica, como já assinalamos, o estudo dos modelos ou tipos de estrutura do gênero romanesco pauta-se sobre as atitudes intelectuais dos escritores em face da crise do individualismo. Para observar o problema recorrente da acessibilidade dos valores humanos não basta enfocar o engajamento do escritor em dar uma significação à vida, mas é preciso proceder à recuperação dos níveis em que a acessibilidade pode ser distinguida. Neste sentido, há que desmontar as diferenciações condensadas entre (a) – o momento fundamental e postulativo da afirmação da capacidade dos homens em elevar-se (a mencionada fé na acessibilidade dos valores humanos[13]); (b) – o momento complementar de compreensão da acessibilidade como dos valores de uma vida autêntica, isto é, uma vida não regida pela ideologia do existente.

Desta sorte, poderemos notar as seguintes orientações como possibilidades postas diante do escritor para equacionar sua atitude em face da crise do individualismo: (a) – pode afirmar os valores humanos universais, mas admitindo-os como problemáticos [14]; (b) – pode afirmar tais valores em modo positivo como transparentes (por oposição a sua compreensão como problemáticos), mas admitindo-os como gravemente ameaçados; (c) – pode contar sua desilusão ou ausência de fé na capacidade de o homem elevar-se.

Além disso, tendo em vista que se trata da situação dos escritores que pretendiam pôr em obra uma visão individualista com mirada universal mesmo no contexto da crise do individualismo, a teoria psicossociológica fará uma relação das dificuldades antepostas aos mesmos, nos seguintes termos: (a) – a dificuldade levando a negar toda a possibilidade de vida autêntica no mundo; (b) – a dificuldade levando a negar o próprio caráter primordial do indivíduo; (c) – a dificuldade em conciliar a importância da referência ao risco da morte para a consciência individual autêntica, por um lado, e por outro lado a sobrevivência do valor dos projetos e das ações individuais para-além do desaparecimento do indivíduo.

Será pela inclusão dessas três dificuldades, combinadas às demais orientações oferecidas aos escritores no quadro da situação contemplada, que a teoria psicossociológica apreciará e alcançará a formulação de um modelo estrutural operativo de análise para a modalidade privilegiada, ou seja, um modelo de análise para o romance com um herói problemático sendo superado pelo contexto exterior. Segundo Goldmann, neste conceito inclui-se o romance cujos personagens são necessariamente homens de ação doentios, como no exemplo dos romances de André Malraux [15].

Com efeito, classificando a modalidade mencionada como romance de transição para a ausência de sujeito, a teoria psicossociológica deixa ver a complexidade do respectivo modelo de estrutura ao assinalar que, ao mesmo tempo, já vigorava a corrente literária levando ao personagem coletivo.

Quer dizer, o romance com “herói superado do exterior” buscava compor o sentido da ação dramática no plano da biografia individual. Porém, sendo por sua vez realisticamente contrastado pelo mundo capitalista em desenvolvimento, que retirava do indivíduo seu valor de individualidade, aquele plano biográfico já se revela insuficiente aos olhos do artista escritor para compor um herói significativo.

Em face dessa insuficiência para figurar no plano da biografia um modelo social de conduta humana, elevado através das imagens-exemplo e problemático, impunha-se ao escritor do romance de transição a exigência realista de figurar um contexto ou ambiência prevalecente envolvendo, condicionando e ultrapassando do exterior ao caráter biográfico como exclusivamente voltado para a busca da elevação individual. Daí a figuração de personagens inconcebíveis sem a sua ação, como em Malraux.

Mas não é tudo. Tendo em vista a elaboração e formulação do referido modelo de romance de transição para a ausência de sujeito, admite-se do ponto de vista histórico ideológico que a figuração dos personagens de ação constitui em verdade uma tentativa de solução para assegurar pela literatura com mirada realista a vida individual significativa.

Por outras palavras, o recurso aos personagens de ação deve ser compreendido como uma tentativa especial que atende a duas condições diferenciais, seguintes: (a) – ser empreendida por um escritor tendo alcançado e já expressado em maneira radical e em nível muito avançado a consciência ética do problema da crise dos valores no individualismo; (b) – ser empreendida por esse escritor consciente como um esforço em busca do fundamento para sua fé na acessibilidade dos valores qualitativos humanos.

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As duas tendências do gênero romanesco:

ausência de sujeito” e “herói coletivo”.

Os personagens do romance de Malraux como protótipos de um romantismo revolucionário, não se questionam a si como suportes desse estilo de vida centrado absolutamente no momento da ação e trazendo-lhes risco de morte.

Mas não é tudo. Do ponto de vista da mirada realista, como compreensão da crise do individualismo ou limitação à capacidade de o indivíduo elevar-se, a prevalência do ambiente sobre a biografia individual impõe certas características complexas na composição do romance com “herói superado do exterior”.

Acresce que, o fato literário sendo um fato de valor, a teoria psicossociológica guarda uma abordagem de ordem fenomenológica de tal sorte que o exame da forma romanesca em correlação com o quadro da crise do individualismo moderno na burguesia constitui uma via de introdução para desocultar a redução do pensamento conceitual e chegar à descoberta da estrutura de consciência literária de que depende a consistência da forma romanesca como fato de valor [16].

Desta sorte, observa-se no complexo modelo do romance com “herói superado do exterior” o reflexo das duas tendências do gênero romanesco: uma orientação para o tipo “ausência de sujeito“, tipo este do qual o modelo com “herói superado do exterior” constitui como dissemos uma antecipação, e outra orientação para o tipo “herói coletivo”.

Em fato, o modo de ser inseparável de sua ação aparece para os personagens como a referência natural ao suicídio ou ao risco de morte. Isto porque se trata de personagens exclusivamente orientados para realizar certos fins supostos elevados que, todavia, são postos no mundo exterior e contra os obstáculos.

Ou seja, há uma variante do individualismo, já que a elevação desejada não aparece aos personagens como esforço único dos indivíduos, mas sim através da ação que deste modo é figurada como meio de elevação individual.

Nota-se ademais que a figuração desses personagens sui generis introduz igualmente como característica composicional que o pensamento vem a ser reduzido, sofre suspensão no momento da ação.

Vale dizer, o estilo de vida centrado na ação, na expectativa dessa ação ultrapassar os obstáculos, e na conquista de seus resultados em vista de um fim suposto elevado e obsessivamente desejado no mundo, realizado pelos personagens do romance de Malraux [17] como protótipos de um romantismo revolucionário, resulta precisamente do fato de que eles não pensam nisto, não se questionam a si como suportes desse estilo de vida centrado absolutamente no momento da ação e trazendo-lhes risco de morte [18].

Goldmann assinala que a suspensão do pensamento, o não-questionamento de si em relação ao estilo de vida suportado, indica certa proximidade ao tipo de romance com herói coletivo. Não que, neste, a ação seja preponderante ou mistificada como meio para a elevação, mas sim que, ao se reduzir o pensamento conceitual, antecipa-se uma qualidade espontânea do estado de aspiração ou de criação coletiva: a afirmação de um sujeito transindividual, como veremos adiante.

No caso do romance com “herói superado do exterior”, ora em exame, a suspensão do pensamento sobre si em relação ao estilo de vida arriscado para o personagem individual, liga-se à afirmação romântica da própria emergência da ação como meio de elevação, ao seu envolvimento como ação significativa histórica para os personagens, de tal sorte que a estrutura de consciência literária deste tipo de romance sustenta-se justamente pela exclusão recíproca da ação significativa e do risco de morte.

A tomada em consideração da referência ao risco de morte pelos personagens revela-se limitativa no sentido de vinculá-los à pegada da ideologia do existente e desviá-los da obsessão necessária para identificar-se à ação como meio de elevação. Trata-se de uma referência que se faz à morte como fim absoluto da luta por mero prestígio, a morte para o mundo. Daí porque tomar em consideração o risco de morte significa estar sob a ideologia do existente. Os personagens do romantismo revolucionário se caracterizam justamente por situarem-se para-além da pegada da vontade mundana.

Ao pôr em relevo a estrutura de consciência literária, a teoria psicossociológica visa chamar atenção sobre a correlação entre a crise do individualismo moderno na burguesia e a ascensão cultural do par intelectual temático ação/morte à reflexão filosófica do século XX.

A Consistência da Estrutura Literária.

Segundo Goldmann, para compreender a consistência da estrutura literária por exclusão recíproca da ação significativa e do risco de morte deve-se ter em conta a compreensão histórico-filosófica reservando à morte como presença no pensamento a atribuição de um efeito retroativo desagregador das significações individuais. Efeito este tanto mais notado quando se trata de todo o valor de uma ação que não tivera outro fundamento senão o indivíduo [19]·.

Com efeito, ao elaborar sobre os romances de Malraux, a teoria psicossociológica visa chamar atenção sobre a correlação entre a crise do individualismo na burguesia e a ascensão cultural do par intelectual temático ação/morte à reflexão filosófica do século XX.

Aliás, no exame histórico deste par temático, sobressaem diferentes formulações conforme se tenha em conta o seguinte: (a) – os esquemas do pensamento cristão à Idade Média; (b) – os esquemas do individualismo moderno; (c) – os do século XX, quando o problema intelectual do fundamento para a afirmação do indivíduo vem a ser formulado.

No esquema do pensamento corrente da Idade Média nota-se que, sendo subordinada à salvação como foco de valores transindividuais, a morte era importante e percebida como um problema porque constituía a referência na qual se afirmava o caráter de existência eterna, marcando para o indivíduo o instante em que iria se decidir “de uma vez por todas” se ele seria eternamente reprovado ou salvo.

Já nas filosofias individualistas, a morte deixa de valer como problema para o pensamento. Os valores individualistas da razão e da experiência permanecem eternos na medida em que haverá sempre indivíduos a perquiri-los realmente, ou os haverá virtualmente com a possibilidade de fazê-lo [20]. Enquanto o indivíduo existe, ele é valor ideal como indivíduo; desde que é morto não existe mais, nem como valor, nem como problema.

No século XX, com a crise dos valores individualistas da razão e da experiência acontecida na seqüência da supressão do mercado concorrencial da sociedade liberal e caracterizada em literatura pelo declínio do romance tradicional com herói problemático, o problema da morte reaparece. O pensamento conceitual filosófico é confrontado às dificuldades para encontrar fundamento aos valores de afirmação do indivíduo.

Por sua vez, essas dificuldades intelectuais são tanto mais acentuadas quanto (a) – se deve ao próprio individualismo da burguesia ascendente nos séculos modernos a supressão dos mais antigos valores transindividuais constitutivos do caráter de existência eterna; (b) – dificuldade essa potencializada pela própria crise dos valores individualistas da razão e da experiência que viemos de mencionar, já que, por sua vez, estes foram igualmente dotados de alcance eterno na série infinita dos indivíduos.

Desde logo, assinala-se como privilegiada a posição pascaliana, que se encontra reatualizada através do escrito filosófico de juventude de Georges Lukacs intitulado “Metafísica da Tragédia”, parte da obra “A Alma e as Formas”, datada em 1911.

Quer dizer, em face da profundidade exigida para reencontrar fundamento à afirmação do indivíduo, o pensamento filosófico orientou-se para os limites do ser humano como indivíduo, para o seu desaparecimento como significação, para a morte.

Dito em outras palavras, na perspectiva da posição pascaliana distinguem-se duas linhas complementares de reflexão. Por um lado, a morte introduz um limite essencial na medida em que toda a significação individual é necessariamente reduzida a nada, à negação do ser, com o desaparecimento do indivíduo que lhe dava o fundamento. Por outro lado, contrastado pelas instituições ou pelo grupo social, o comportamento individual se apresenta como a ausência de toda a forma de realidade transindividual que tenha significação do ponto de vista do caráter de existência eterna. Ademais, no prolongamento desta ausência, o comportamento individual se apresenta como dificuldade para encontrar na ação externa uma significação plena e válida. Daí cabe destacar que a ação do indivíduo não ultrapasse a ideologia do existente.

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Posição Pascaliana e Pensamento Existencialista

A posição pascaliana terá desdobramento no pensamento estético e existencialista do Século XX.

Desse modo compreendida a posição pascaliana terá desdobramento no pensamento estético e existencialista do Século XX, deixando ver as duas orientações seguintes: (a) – que a vida autêntica é impossível no mundo (em face daquela ausência); (b) – que por autenticidade deve-se entender não só a consciência clara dessa impossibilidade em viver uma vida autêntica, mas também a conseqüente recusa voluntária e radical [21].

A teoria psicossociológica tem ponto de partida nesses dois desdobramentos da posição pascaliana como referência básica para compreender a exclusão recíproca da ação significativa e do risco de morte sustentando a estrutura de consciência literária em obra no tipo de romance com “herói superado do exterior”.

Deste ponto de vista se aclaram as orientações filosóficas indispensáveis a qualquer estudo sobre o problema do individualismo moderno no Século XX.

Com efeito, as orientações filosóficas do “jovem” Lukacs e de Heidegger afirmariam que a existência individual autêntica pode se realizar na ação significativa histórica. Segundo Goldmann haveria nesses dois filósofos algumas linhas alternativas de viabilidade para a realização individual na ação significativa histórica seguintes: (a) – a intervenção em estado de realidade de um sujeito transindividual; (b) – a repetição autêntica e não mecânica da atitude e do comportamento de grandes figuras do passado, como sobrevivência do valor do indivíduo para além do desaparecimento do mesmo.

Mas não é tudo. Se a possibilidade de realização autêntica do indivíduo na ação significativa histórica é afirmada, as linhas alternativas assim entendidas fazem com que a referência ao risco de morte tenha um caráter secundário, não passando de uma peculiaridade individual e incapaz de atrair o pensamento do sujeito da ação significativa [22].

Finalmente, na estrutura literária do romance “com herói problemático sendo ultrapassado pelo contexto exterior”, assim formulada pela “exclusão recíproca ação/risco de morte” observa-se a seguinte dinâmica: enquanto o indivíduo vive, a autenticidade de sua vida reside em seu pleno engajamento na ação significativa, sobretudo reside nas suas atitudes propriamente morais, inspiradas pela experiência de uma luta contra todos os obstáculos que se opõem ao esforço humano, tida esta como manifestação reconhecida, digna de aprovação desinteressada.

Neste sentido, a referência ao risco de morte mostra-se uma realidade virtual estranha, cuja atualização enleva retroativamente como mencionado todo o valor à ação do indivíduo que, então, se encontra sozinho, como o homem de Pascal.

Na composição romanesca com herói coletivo, se, por um lado, as buscas individuais são solucionadas e a vida dos indivíduos é inteiramente significativa – são reconhecidos como suportes do caráter de existência eterna – nota-se que, por contra, a ação do grupo inteiro mostra-se problemática.

Mas o caráter de transição para o modelo de ausência de sujeito, observado na literatura de avant-garde, é também notado nas modalidades do romance com personagem coletivo que, então, revela-se problemático como o herói individual – personagem que por seu pensamento e atitude é vinculado aos valores qualitativos, mas não inteiramente subtraído à existência da mediação degradante, como já mencionado.

Com efeito, nos romances com herói coletivo a autenticidade é tida possível desde que o indivíduo encontre-se inserido em uma realidade transindividual, capaz de atender para ele às exigências do caráter de existência eterna, o caráter dos valores humanos qualitativos que, justamente por isso são classificados valores transindividuais.

Aliás, cabe lembrar que, do ponto de vista da teoria psicossociológica, cujo quadro de referência e campo de aplicação é o individualismo moderno e seu desgaste como simbolismo social, o foco dos valores transindividuais é uma idéia-força de alcance não transcendente, mas permanente, como é a idéia de salvação, marcando para o indivíduo o instante em que iria se decidir “de uma vez por todas” se ele seria eternamente reprovado ou salvo.

Daí o caráter de existência eterna penetrando o conjunto dos valores humanos, por isso valores qualitativos. Em virtude desse caráter, como já vimos, o individualismo admite que enquanto o indivíduo existe, ele é valor genérico como indivíduo, ou seja, suporte do caráter de existência eterna: sempre haverá indivíduos humanos perquirindo valores que lhes são próprios, como razão e experiência [23].

Mas a coisa não é assim tão simples. Na composição romanesca com herói coletivo, onde a autenticidade é tida possível, há uma ambigüidade mais complexa. Com efeito, se, por um lado, as buscas individuais são solucionadas e a vida dos indivíduos é inteiramente significativa – são reconhecidos como suportes do caráter de existência eterna – nota-se que, por contra, a ação do grupo inteiro mostra-se problemática.

Quer dizer, constata-se igualmente o personagem que por seu pensamento e atitude é vinculado aos valores qualitativos, mas não inteiramente subtraído à existência da mediação degradante. Ou seja, a ação do grupo inteiro mostra-se problemática não só em razão de seu apego aos valores contraditórios da ação, criados pela comunidade como inserida em uma unidade maior, mas também em razão da “disciplina” (“l’esprit de corps“) no interior do grupo e mais ainda em razão da impossibilidade em conceituar a contradição daí decorrente para o individualismo.

O Ponto de Vista das Estruturas Reificacionais.

Devemos então retomar o ponto de vista das estruturas reificacionais, já que a transposição do coeficiente de realidade do indivíduo para o objeto inerte, como um processo histórico, constitui a referência fundamental de toda a teoria psicossociológica.

Podemos ver na referência deste tipo romanesco com herói coletivo problemático o lugar da reflexão que porta sobre a configuração do romance como gênero no qual a ética do escritor torna-se elemento estético da obra. Devemos então retomar o ponto de vista das estruturas reificacionais, já que a transposição do coeficiente de realidade do indivíduo para o objeto inerte, como um processo histórico, constitui a referência fundamental de toda a teoria psicossociológica.

Já vimos que o romance corresponde ao desenvolvimento da sociedade burguesa e do mundo capitalista na medida em que põe em obra a história de uma busca, uma aspiração implicando uma biografia individual. Todavia, como se sabe, o imenso progresso da forma romanesca no século XIX constitui um indicativo seguro do fenômeno superestrutural da reificação, notado inclusive no plano da composição, onde a biografia individual nutrida de aspiração enseja a forma romanesca exatamente não só porque deve necessariamente decepcionar, mas porque segrega as razões de sua degradação em crônica social.

Vimos igualmente, do ponto de vista das estruturas reificacionais [24], que há uma transposição do coeficiente de realidade do indivíduo para o objeto inerte. Isto é, todo um conjunto de elementos fundamentais da vida psíquica desaparece das consciências individuais no setor econômico para delegar suas funções à categoria preço, que aparece como uma propriedade nova e puramente social dos objetos inertes, os quais, por sua vez, passam então a guardar as funções ativas dos homens.

Quer dizer, tudo aquilo que era constituído nas formações sociais pré-capitalistas pelos sentimentos transindividuais de permanência ou de caráter eterno do individualismo, pelas relações com os valores da afetividade que ultrapassam o indivíduo, incluindo o que dá significado à moral, à estética, à caridade, à fé desaparece das consciências individuais no setor econômico e são transpostos aos objetos inertes, que passam a guardar as funções ativas dos homens.

Daí a compreensão diferencial desenvolvida em teoria psicossociológica de que os modelos de romance com herói problemático individual ou coletivo devem ser situados em uma trajetória para a ausência de sujeito figurada nos romances de avant-garde.

Quer dizer, a configuração da forma romanesca se modifica em função dos graus da transposição do coeficiente de realidade do indivíduo para o objeto inerte, como um processo histórico, de tal sorte que se podem diferenciar três fases desse histórico influindo nas vertentes do romance.

No romance clássico os objetos têm uma importância primordial, mas existem somente por meio do trato que lhe dão os indivíduos, correspondendo à fase da economia liberal se prolongando até o começo do século XX, caracterizada por manter ainda a função essencial do indivíduo na vida econômica (e por extensão na vida social).

Entretanto, essa situação de economia liberal muda na fase dos trustes, monopólios e do capital financeiro, observada no fim do século XIX e, notadamente, no começo do século XX, tornando-se acentuada a supressão de toda a importância essencial do indivíduo e da vida individual na interior das estruturas econômicas.

Na fase do capitalismo de organização, observado depois dos anos de 1930 pela intervenção estatal impondo os mecanismos de auto-regulação da economia de produção para o mercado, se constata, em modo correlativo à supressão progressiva da importância essencial do indivíduo, não somente a independência crescente dos objetos inertes, mas a constituição desse mundo de objetos em universo autônomo tendo sua própria estruturação [25].

Estas observações sobre a transposição do coeficiente de realidade do indivíduo para o objeto inerte, como um processo histórico, são constatações indispensáveis para compreender a forma romanesca nos escritores como Balzac, Stendhal, Flaubert, Zola, Malraux, Thomas Mann, Pasternak, etc., estes já no século XX, haja vista que o romance os permitiu colocar em obra ao mesmo tempo o problema da busca do humano em um mundo que lhe é contrário e descrever a essência deste mundo inóspito[26].

Daí porque importa pesquisar o romance como o único gênero literário no qual a ética do romancista – sua atitude a respeito do problema da busca do humano em um mundo que lhe é contrário – torna-se um problema estético da obra.

Quer dizer, uma vez admitido que os valores ideais autênticos encontram-se implícitos no horizonte do romancista, onde permanecem abstratos e constituem o caráter ético, surge o problema de saber como se faz que esses valores venham a se tornar elementos essenciais de uma obra artística literária como o romance.

Indagação esta procedente na medida em que as idéias abstratas não têm lugar em uma obra artística literária, onde constituiriam elemento heterogêneo, só podendo ser afirmadas, entretanto, sob o modo de uma ausência não temática, ou presença degradada.

Aliás, essa indagação mostra-se indispensável quando se tem em vista notadamente a situação dos escritores que buscam pôr em obra uma visão individualista com mirada universal, tendo por base o próprio contexto de crise do individualismo, que marca a segunda metade do século XIX e o início do século vinte.

Tendo em conta, ademais, a distinção fundamental entre a obra propriamente literária e os escritos conceituais, como vimos, sobressai que a possibilidade para o escritor fazer obra literária, criar universos imaginários concretos com mirada realista, revela-se estreitamente ligada à certeza de sua aspiração, à fé em valores humanos afirmados como universalmente acessíveis a todos os homens.

***

A Configuração do Romance: relação Dialética entre o Herói e o Mundo ou: sobre o Tema Crítico da Ironia Romanesca.

Será a partir dessas preliminares que o tema crítico da ironia se imporá à reflexão que porta sobre a configuração do romance como gênero no qual a ética do escritor torna-se elemento estético da obra.

A reflexão sociológica sobre a configuração do romance como gênero no qual a ética do escritor torna-se elemento estético da obra exige observar a relação dialética entre o herói e o mundo e, por este via, pôr em relevo a situação de que o escritor, o romancista, ultrapassa em sua percepção a consciência de seus personagens.

Quer dizer, do ponto de vista da teoria psicossociológica o estudo do romance com herói coletivo se mistura à reflexão sobre o tema crítico da ironia.

Mas não é tudo. Há que observar dois aspectos complementares da composição romanesca em que as linhas preliminares consideradas acima são articuladas, notadamente a compreensão de que os valores ideais autênticos encontram-se implícitos no horizonte do romancista.

Continua


[1] Ver: “O Tradicional na Modernização” (obra-manuscrito em finalização no meu Google Docs) e o ensaio publicado “Crítica da Cultura e Comunicação Social“.

[2] Friedrich Schiller (Johann Christoph), 1759 – 1805.

[3] Ver Goldmann, Lucien: “Recherches Dialectiques“, pág.91.

[4] Ver Goldmann, Lucien: “Sociologie du Roman”, págs. 33, 35.

[5] Do ponto de vista das estruturas reificacionais sobressai a supressão de toda a importância essencial do indivíduo e da vida individual no interior das estruturas econômicas. Ver NOTA COMPLEMENTAR 01 NO FINAL desta Introdução.

[6] Ib, ibidem, págs.83, 84.

[7] Ver “Entrevista com Ernst Bloch“, in Lowy,M: “Para uma Sociología de los  Intelectuales Revolucionários“, pág. 259.

[8] Ver Goldmann, Lucien: Pour une Sociologie du Roman, Paris, Gallimard, 1964, 238 págs.  Ver igualmente NOTA COMPLEMENTAR 01, no final deste tópico.

[9] Cf. Ib, ibidem, pag.49.

[10] Os estudos de Lucien Goldmann centram-se nas obras do grupo dos autores de “avant-garde<!–[if supportFields]> XE “avant-garde” <![endif]–><!–[if supportFields]> <![endif]–>” nos anos de 1960 – reunindo Ionesco, Beckett, Nathalie Sarraute, Marguerite Duras, Alain Robbe-Grillet. A produção desses autores e grande parte da literatura européia depois de Kafka teriam por conteúdo essencial o tema da ausência, como a impossibilidade do essencial ou ausência de tudo o que poderia ser importante para a vida e a existência dos homens. Cf. Goldmann, Lucien: Pour une Sociologie du Roman, Paris, Gallimard, 1964, 238 págs. / Structures mentales et création culturelle, Paris, Éditions Anthropos ,1970.

[11] Sobre as alternativas excludentes como dispositivo ideológico de dominação burguesa, ver NOTA COMPLEMENTAR 02, no final deste tópico.

[12] Cf. Goldmann, Lucien: “Recherches Dialectiques“, op.cit, pág.242.

[13] Certos autores tratarão esse problema da acessibilidade dos valores em termos de uma sociologie du voeu, correspondendo a noção de consciência possível desenvolvida por Lucien Goldmann. Ver NOTA COMPLEMENTAR 03, no final deste tópico

[14] Isto é, admitindo o acesso aos valores qualitativos como não inteiramente subtraídos à existência da mediação degradante.

[15] Ver Goldmann, Lucien: “Sociologie du Roman“, op.cit. págs.95, 96.

[16] Sobre a afirmação de que a literatura satisfaz certa necessidade cultural não utilitária, ou seja: o valor literário, ver NOTA COMPLEMENTAR 04 no final deste tópico.

[17] Ver: o romance de Malraux intitulado “La Voie Royale“.

[18] Cf. Goldmann, Lucien: “Sociologie du Roman“, op.cit. págs.87, 88.

[19] Cf. Ib, ibidem, pág. 95.

[20] Cf. Ib, ibidem, págs. 89 sq.

[21] Cabe lembrar que o existencialismo de diferentes tendências representou uma tentativa de resistência em nome do Eu, do outro, das coletividades concretas em face da tecnificação ou tecnocratização do saber. Cf. Gurvitch, G.: “Los Marcos Sociales del Conocimiento“, pág. 233. Ver tb Lumier, Jacob (J.): “Técnica, Tecnificação, Sociologia do Conhecimento“, e-book pdf, 101 págs, Web da OEI, 2008, enlaces: http://www.oei.es/noticias/spip.php?article3550 http://www.oei.es/salactsi/matriz1.pdf

[22] Cf. Goldmann, Lucien: “Sociologie du Roman“, op.cit. págs. 92 sq.

[23] Neste sentido, o individualismo assimila e reforça o subjetivismo idealista da filosofia do século XVIII, onde se projetava o dogma de um Eu genérico idêntico em todos.

[24] Nas estruturas reificacionais de descreve a efetividade para o individualismo do fenômeno do fetichismo da mercadoria, descoberto em sociologia por Karl Marx. Ver NOTA COMPLEMENTAR 01 no final desta Introdução.

[25] Sobre o estatuto dos campos inertes nas análises dos conjuntos práticos é imprescindível refletir sobre o debate de Jean Paul Sartre e Georges Gurvitch. Ver a respeito dessa aproximação do existencialismo e da sociologia meu artigo seguinte: Lumier, Jacob (J.): “A Dialética Sociológica, o Relativismo Científico e o Ceticismo de Sartre: Aspectos de um debate atual do século XX“, Internet, E-book PDF, 50 págs, OpenFSM, 2009, link: .

[26] Ver Goldmann, Lucien: “Recherches Dialectiques“, pág.91.

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