Skip to content

Sociologia da Literatura

“INDIVIDUATION” e SOCIOLOGIA

por

Jacob (J.) lumier

Jacob (J.) Lumier

Este ensaio foi elaborado em vista de aprofundar na arte literária de Proust sob o aspecto da mediatização e no quadro da crise de objetividade literária, cujo exame teve início em obra anterior. O interesse da sociologia no romance é o individualismo. No século XX os sociólogos acentuam que a dificuldade em descrever a biografia e a psicologia do personagem deve-se ao fato de se viver numa sociedade onde o indivíduo já não é o valor predominante. Admite-se que para permanecer fiel à sua herança realista e continuar dizendo como são realmente as coisas, o romance teve que se afastar de um realismo voltado para reproduzir apenas a fachada e teve que promover o equívoco desta. Tarefa por sinal não estranha ao romance que desde o século XVIII com o Tom Jones, de Fielding, já encontrara seu verdadeiro objeto no conflito entre os homens vivos e as petrificadas (ou mumificadas) relações, de tal sorte que a própria alienação se converte assim para o romance em meio artístico (T.W. Adorno).

Como se sabe em história literária, a ação dramática do romance esteve envolvida em uma técnica da ilusão que reservava previamente ao leitor o papel limitado de realizar algo já realizado e participar assim do caráter ilusório do conteúdo representado. Entretanto, simultaneamente à supressão do objeto do romance em face do gênero reportagem no século XX, implicando e alterando a posição do narrador que por diferença do realismo literário do século XIX não mais possui a experiência do conteúdo a ser narrado, nota-se que o cará-ter ilusório vai sendo suprimido conforme se passe de Flaubert para Proust, Gide, Thomas Mann ou Musil e desemboque no que T.W. Adorno chama “reabsorção da distância estética”. Desse modo vem a ser favorecida a prevalência da relação com o leitor por fora e em detrimento da união autor-personagem-leitor. Daí um tipo de romance cujo impulso é decifrar o enigma da vida externa (o autor literário que não mais possui a experiência do conteúdo evita a pretensão de que sabe exata-mente “como foi”, exclui a “pretensão de conhecimento” ). Tipo de romance este ao qual se aplica a asserção de que a alienação se converte em meio artístico, de tal sorte que a análise sociológica exige pôr em relevo, além da fantasia, a ambigüi-dade do romance como técnica de comunicação.

Henry Fielding (1707-1754)

Quer dizer, o aspecto da fantasia já não é acessível sem a mediação da técnica de comunicação. Neste sentido T.W. Adorno remarca que o avanço de Dostoyevski está em ter pressentido que o romance estava obrigado a romper com o positivo e apreensível e a assumir a representação da essência como das qualidades humanas, uma psicologia do caráter inteligível. Daí o surgi-mento de um narrador como homem no exercício experimental de suas recorda-ções únicas. Daí também, dessa atitude experimental em literatura, em modo es-pecial, um vínculo ao Iluminismo e à liberdade de pensamento que ultrapassa o Eu genérico legado do século XVIII. Portanto, será o narrador como homem no exercício experimental de suas recordações únicas e por esta via não-generalizável vinculado ao Iluminismo e à liberdade de pensamento, que Adorno reencontrará em Proust. Se na arte deste se afirma a recordação pelo monólogo interior – recordação personificada em sua realidade humana pelo narrador prousteano ou mesmo para-além dele – se atualiza igualmente o dilettantismo: o modo de ser do homme de lettres como sujeito social de conhecimentos. Tal é o ponto de vista da recordação que além de experiência não-generalizável se exerce por um proceder experimental, por intenção tenteadora, a saber: a recordação na medida em que se experimenta como esperança ou desilusão fornece o critério que confirma ou refuta para si mesmo as observações do sujeito como indivíduo humano. Tal o caráter do monólogo interior na arte de Proust, caráter artístico criado pelo narrador prousteano como homem experimentado .

Neste sentido, o interesse sociológico na literatura do século XX aprofunda no individualismo para focar-se na própria individuation burguesa, na possibilidade mesma do que constitui ou diferencia um indivíduo de outro indivíduo em contexto de alienação. Daí o domínio conexo entre a estética-sociológica e as teorias metapsicológicas, já que à objetivação do humano nas estruturas corresponde o surgimento da subjetividade, a aspiração aos valores que resta em estado de aspiração, uma cultura que não se individualiza. Daí o simples como pensamento letargado, perplexo, chegando à ataraxia , a qual não deve ser confundida às alienações mentais subjetivas, esquizofrenias ou delírios patogêni-cos em face da realidade e frequentemente provocados no envolvimento do indivíduo em alternativas inconciliáveis para o sentimento de felicidade.

Com efeito, em sociologia a busca da individuação na composição literária de avant-garde deve levar em conta a coisificação não somente como condição da ruptura libertadora, condição negativa, mas como a forma positiva que torna objetivo o trauma subjetivo, como o caráter de mercadoria assumido pela relação entre os homens. O modelo da tradição do romance que vem do século XVIII, desde o Iluminismo, tendo por objeto o conflito entre o homem vivo e as petrificadas relações sociais, é uma referência limitada ao nível ideológico e, falta de crítica social, não atende à exigência de justiça poética, não evita colocar os personagens em injustiça pelo não reconhecimento ou pela descaracterização do perfil neurótico desempenhado. T.W. Adorno acentua a crítica social não só como ponto de vista aproximadamente freudiano sobre a busca da individuação (objetivação do trauma subjetivo), porém equipara a crítica social ao conhecimento de que a promessa humanista da civilização afirma o humano como incluindo em si juntamente com a contradição da coisificação também a coisificação mesma.

Nesse caráter de mercadoria assumido pela relação entre os homens, uma relação que se esqueceu de si mesma – forma positiva que torna objetivo o trauma subjetivo – a busca da individuação passa pela forma reflexa afirmando a falsa consciência que o homem tem de si mesmo e que é decorrente dos seus fun-damentos econômicos.

Franz Kafka 1883-1924 A

Essa falsa consciência configura por sua vez o homem coisificado não somente como uma realidade crítico-teórica, mas dá-lhe expressão como um homem obnubilado diante de si mesmo. Daí, finalmente, desse estado patético procede a figura recorrente na literatura de avant-garde do personagem neurótico como afirmação da individuação buscada no contexto da Standardização e da indústria cultural, o personagem com alcance crítico e por isso com valor artístico positivo. De fato, se a justiça poética é uma noção reflexiva aplicável à utopia negativa como tema configurando o campo da arte e literatura de avant-garde e se vale para designar o modo pelo qual o autor, como artista, deve observar e aplicar a forma de objetivação na composição dos personagens, sua figuração da ataraxia (ou até mesmo da ancilose , como em “A Metamorfose”, de Kafka), isto é, sua assimilação ou seu distanciamento para com a crítica social, então temos que a atitude efetiva assumida em face desse modo composicional ou dessa crítica social leva a distinguir um momento positivo e um momento negativo in-terpenetrados na utopia negativa. É o que T.W. Adorno nos sugere e suas análises esclarecem .

Mas não é tudo. Em suas múltiplas facetas, o domínio conexo entre a estética-sociológica e as teorias metapsicológicas pode ser assinalado igualmente no caráter estranhado da subjetividade daquele que ainda tem história apesar da fixação do Sempre Igual da produção em massa, caráter que se observa em certas formas de arte de avant-garde do século XX, como o surrealismo. Neste, se configura uma tensão entre esquizofrenia e coisificação marcando a individuation na era da modernidade e que se descarrega na catarse ou shock surrealista. Sustenta T.W. Adorno que se as formações surrealistas têm analogia com o sonho em psicanálise por desarticularem a lógica habitual e as regras da existência empírica, todavia elas continuam respeitando as coisas isoladas, separadas violentamente umas das ou-tras do mundo coisificado, continuam respeitando todos os seus conteúdos e até aproximam o humano à figura coisista.

No sonho, o mundo coisista aparece incomparavelmente mais velado ou menos posto como realidade do que no surrealismo, que é a arte sacudindo a arte. Quer dizer, no surrealismo o sujeito atua muito mais abertamen-te e menos inibidamente aplicando suas energias em apagar-se a si mesmo, en-quanto no sonho isso é feito sem necessidade de energia alguma. A diferença é que disso resulta tudo mais objetivo no surrealismo do que no sonho em psicanálise. Neste último o sujeito é ausente por antecipação e se ele dá cor e penetra em tudo o que ocorre o faz entre bastidores. Daí porque as associações dos conteú-dos no surrealismo não sejam as mesmas que na psicanálise, embora ambos busquem a expressão involuntária. No surrealismo, onde se tem em vista a coisificação total que o remete totalmente a si mesmo e ao seu protesto, o sujeito dessa expressão involuntária e que dispõe livremente de si, tendo se desentendido de toda a consideração do mundo empírico, revela ser algo desanimado, desprovido do elemento anímico, mítico.

T.W.Adorno sublinha haver uma dialética da liberdade subjetiva em situação de falta de liberdade objetiva de tal sorte que, nas imagens do surrealismo, o que se tem é o abandono pela sociedade burguesa da sua esperança na própria sobrevivência. Daí a aplicação ao conteúdo do surrealismo da frase atribuída ao Hegel de A Fenomenologia do Espírito segundo a qual “a única ação da liberdade geral é a aniquilação que não tem dimensão nem cumprimento interno algum” . Segundo T.W. Adorno, esta frase que põe em relevo o sentido do “algo des-animado” caracterizando o sujeito da expressão involuntária como desprovido do elemento anímico ou mítico serve para explicar o alcance crítico do surrealismo.

Dessa forma, não surpreende que tenhamos acentuado a interconexão metapsicológica da leitura de Proust neste nosso ensaio. Assim, sob o valor da notoriedade na relação de prestígio dos freqüentadores proustianos dos Salões parisienses, nos anos que precederam a década de Vinte, os autores afeitos à sociologia literária da vertente psicanalítica observam o que Theodor W. Adorno classificou de “um decisivo complexo”, designando o esnobismo como vontade de superar ou tornar sem importância o medo do tabu mediante o ingresso entre os iniciados . Nas observações deste autor será com referência à percepção desse “decisivo complexo” que se pode constatar não só a aproximação de Kafka a Proust, mas um certo paralelismo entre, por um lado, estes dois grandes artistas-escritores, através notadamente do primeiro, e por outro lado o pensamento de Freud na obra “Totem e Tabu”.

Com efeito, T.W. Adorno sustentará a aplicação da noção de tabu de um rei tirada de Freud como imprescindível para compreender aquilo que em Kafka move aos homens para unirem-se com outros mais altos. Sua análi-se é suscitada pela questão de como chegar à interpretação do cosmos de Kafka e seu ponto de partida é a hipótese sobre o estatuto da linguagem nas obras deste, marcadas pela inversão da relação conceito/gesto, em que os gestos são resíduos, são os restos das experiências recobertas pelo significar: o gesto é “o assim é”, enquanto a língua “cuja configuração deve ser a verdade”, estando quebrada, é a não-verdade. Segundo T.W. Adorno é a lógica da perspectiva hierárquica em psicanálise que se verifica no esnobismo proustiano como complexo e em Kafka.

Marcel_Proust_ 1871-1922

Mas não é tudo. Para caracterizar a orientação artística de Kafka em sua ligação com a psicanálise, T.W. Adorno nos oferece suas observações mais sociológicas sobre a atitude de Kafka em face do sofrimento, tomado este como estando cada vez mais submetido aos controles racionais do mundo da comunicação social. De início, comparando com a orientação de Freud em que a psicanálise é voltada para “o desmascaramento do mundo aparencial” tendo em vista as entidades psíquicas como os atos falhos, os sonhos e os sintomas neuróticos – lembrando que dentre estes últimos se incluem os que acometem ao herói K ao crer que os vizinhos o estão observando desde as janelas ou ao ouvir ao telefone sua própria voz cantarolando – T.W. Adorno põe em relevo que em Kafka tais entidades psíquicas são tomadas como “o lixo da realidade”, os produtos do desperdício separados da sociedade evanescente pelo novo que se forma: tal o material único tomado por Kafka ao produzir sua arte.

Quer dizer, como em toda a grande arte, a arte de Kafka “domina a ascese diante do futuro” sem esboçar todavia a imagem da sociedade nascente, mas “a monta com os produtos do des-perdício”. Em vez de sanar a neurose, “Kafka busca nela mesma a força salvadora que é a do conhecimento”; “as feridas que a sociedade ocasiona ao indivíduo são lidas por este como cifras da não-verdade social, como negativo da verdade. Sua potência é potência da decomposição”. Ao desmantelar a decomposição arrancando a máscara conciliatória que recobre o desmesurado sofrimento submetido aos controles racionais, “o artista não se limita como o faz a Psicologia a ficar junto ao sujeito, mas penetra até o meramente existente detectado no fundo subjetivo com a caída da consciência ao perder toda a auto-afirmação”.
T.W. Adorno sugere a aplicação da abordagem de Kafka como exemplar à literatura que interpela a individuação burguesa, incluindo Proust e Joyce. Trata-se de subtrair a psicanálise para confrontar o especifica-mente psicológico notado na concepção que “faz derivar o indivíduo a partir de impulsos amorfos e difusos”, isto é faz derivar o Eu do Isto convertendo a pes-soa de entidade substancial, de ser em vigência do anímico, em “mero princípio de organização de impulsos somáticos”. A via de Kafka seria voltada para reinventar a psicanálise, tratando a esta em uma série experimental em vista de verificar o que aconteceria se as asserções da mesma “fossem certas não metafórica e mentalmente, mas sim materialmente”, tomando-a mais ao pé da letra que a própria psicanálise, mas, desta forma, pecando contra a sua regra de simples desmas-caramento do mundo aparencial, desmascaramento pelo qual a psicanálise “prova à cultura e à individuação burguesa sua mera aparência”.

Daí a compreensão de T.W. Adorno equiparando a caída da consciência uma vez desprovida de auto-afirmação à caída do sujeito como engenho, lembrando a imagem de mônada leibntziana fechada, sem janelas, mas tomando-a como o foco irradiador da narrativa de Kafka ou, no dizer mesmo de Adorno: “a mônada sem janelas prova ser lanterna mágica, mãe de todas as imagens, como em Proust e em Joyce”.

Acresce que, coerente com essa interpretação do foco da narrativa por monólogos irradiando-se de uma consciência-mônada, T.W. Adorno acentua as experiências desprovidas de normas que em Kafka circunscrevem a própria norma como expressando o permanente déjà vu, que é o déjà vu de todos: o fim oculto da arte de Kafka é a disponibilidade, a tecnificação e a coletivização do déjà vu .

Finalmente, note-se que a interconexão metapsicológica neste nosso ensaio encontra-se igualmente afirmada na aproximação beckettiana sobre a obra de Proust. A conjectura estética essencial de Beckett para a memória involuntária de Proust, seu modelo de reduplicação alcançado pela e na experiência artístico-extática, afirmando como coerente a hipótese de um dado esquecido cris-talizado na vida interior, tem respaldo na teoria metapsicológica de Alfred Adler , em que o modo pelo qual o indivíduo amolda seu caráter passa através de um mundo imaginário e belo no qual a vontade de finalidade pode restar indemne, conforme o desejo de precedência. De tal sorte que, nesta teoria metapsicológica afir-mando o instinto do Eu é a tensão para o objetivo fictício fixado que toma o lu-gar da pulsão i-nata e saída das profundezas do ser que era a libido de Freud. Há uma trajetória pela qual o indivíduo constrói ele mesmo seu personagem com base em uma imagem ideal ou utilizando-se da comédia e da ficção. Vale dizer, o Eu, no plano do sentimento, efetua uma sorte de compensação pela ficção em tal maneira que a incerteza dolorosa em suportar é não só reduzida a sua mais sim-ples expressão, porém, na seqüência, vem a ser transposta no seu pólo diametral-mente oposto, o objetivo fictício, que se torna, então, o alvo de todos os anseios, de todos os sonhos e de todos os afetos.

© 2009 Jacob (J.) Lumier

***

Advertisements
One Comment

Trackbacks & Pingbacks

  1. O Calvário de Proust | Leiturasociologica's Weblog

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: