Skip to content

A arte do monólogo interior

A Moral do Artista: Leitura de Proust

A arte do monólogo interior

►Precisões a respeito do meu ensaio “A Moral do Artista: Leitura de Proust”.

(Bubok Publishing, Madrid, 2010, 132 págs. Tamaño: 15x21cm)

ISBN: 978-84-9981-603-6

http://www.bubok.es/libros/190395/A-Moral-do-Artista-Leitura-de-Proust

Por

Jacob (J.) Lumier

Em modo equiparável a T. W. Adorno, que atribui o efeito de rebaixar o mundo exterior à recordação da infância, como criação do narrador monológico, Beckett enfrentará por sua vez a questão de descrever exatamente a maneira pela qual esse efeito redutor atribuído à arte do monólogo, como recordação, pode levar à descoberta, criação ou afirmação da realidade como autêntica.

 Leitura sociológica

Em seu ponto de partida, o sociólogo toma o objeto literário como configuração de valor, na qual não é somente certo número de ideias que se encontram dotadas da máxima eficácia estética, mas também certo número de emoções.

Desta forma, ao se orientar para a apreensão do desejado em literatura, o sociólogo assume um ponto de vista interior ao fato literário, trazendo para o campo sociológico as experiências individuais indiretas e variadas de todos os subterfúgios, achados, disfarces, fugas, simulações, etc.

Isto não quer dizer que os ensinamentos sejam desprezados em favor da fantasia.  Se as experiências literárias podem aportar alguma “lição”, importa que os indivíduos reconheçam tais experiências indiretas porque, em sua engenhosidade, delas se ocupam.

►Em relação à sociologia da literatura do século XX, há um aprofundamento no individualismo para focar-se na própria individuation burguesa, na possibilidade mesma do que constitui ou diferencia um indivíduo de outro indivíduo em contexto de alienação.

Admite-se que a objetivação do humano nas estruturas correlaciona-se ao surgimento da subjetividade, como aspiração aos valores que, entretanto, restam em estado de aspiração, compreendendo uma cultura difusa, vaga, sem pertença, uma cultura que não se individualiza.

Daí a simples subjetividade como pensamento letargado, perplexo, chegando à ataraxia, a qual não deve ser confundida às alienações mentais subjetivas, esquizofrenias ou delírios patogênicos em face da realidade, frequentemente provocados no envolvimento do indivíduo em alternativas irreconciliáveis para o sentimento de felicidade.

Embora haja domínio conexo entre a estética sociológica e as teorias metapsicológicas, o alcance crítico da sociologia literária sobressai. Tanto que, ao pesquisar a composição romanesca em seu contexto de alienação (cultura que não se individualiza, consciência projetada para fora), o sociólogo observa que a busca da individuação é colocada diante da coisificação (forma do caráter de mercadoria assumido pela relação entre os homens), não somente como (a) condição da ruptura libertadora – portanto condição negativa –, mas (b) como forma positiva, isto é, forma que torna objetivo o trauma subjetivo (torna objetiva a consciência desprovida de autoafirmação).

Tal o sentido positivo da coisificação – formulado acima no “item b” – para a busca da individuação em literatura romanesca: forma do caráter de mercadoria assumido pela relação entre os homens. Daí a idealização de um retorno à memória da infância, que fixa um tempo perdido, quase uma tendência à introspecção, ao fechamento, de que nem Proust nem mesmo o freudismo escaparam.

► O interesse da leitura sociológica porta sobre o problema da crise de objetividade literária, que atingiu o romance no século vinte em face da maior importância da reportagem para o realismo, problema tratado por Beckett [1]já nos começos dos anos 1930, exatamente em seu notável ensaio sobre Proust, que me serve de referência, no qual apresenta um esclarecimento sobre o procedimento artístico literário que aprofunda o monólogo interior.

De fato, em modo equiparável a T. W. Adorno, que atribui o efeito de rebaixar o mundo exterior à recordação da infância, como criação do narrador monológico [2], Beckett enfrentará, por sua vez, a questão de descrever exatamente a maneira pela qual esse efeito redutor atribuído à arte do monólogo, como recordação, pode levar à descoberta, criação ou afirmação da realidade como autêntica.

Tal a compreensão sociológica que orientou minha elaboração de “A Moral do Artista”. Aliás, meu trabalho sobre Proust foi concebido para ilustrar a aplicação das observações críticas sobre a ideologia do Futurismo, elaboradas no meu livro “A Utopia Negativa: Leituras de Sociologia da Literatura“, publicado junto à Universidade de Málaga, Espanha, cuja versão em e-book é acessível em http://eumed.net/libros/2010e/819/index.htm

►Como já assinalei em escrito anterior [3], no âmbito da ambiguidade do romance como técnica de comunicação, a arte do monólogo interior deve ser compreendida: (a) – como um momento da corrente da consciência que abrange todo o externo; (b) – ancorada numa recordação da infância, permitindo ao narrador monológico fundar um espaço interior, e com isto evitar a falsidade do tom que se finge familiar com o mundo externo, elidindo assim a pretensão de conhecimento que o romance deve excluir.

Por outras palavras, na ambigüidade do romance, o monólogo interior tem a função básica de evitar o discursivo, a narrativa do “foi assim”, a pretensão de que o narrador sabe exatamente como foi.

                          O narrador monológico busca fundar um espaço interior, a fim de evitar a falsidade do tom que se finge familiar com o mundo externo, elidindo assim a pretensão de conhecimento, que o romance deve excluir.

O monólogo interior tem a função básica de evitar o discursivo, a narrativa do “foi assim”, a pretensão de que o narrador sabe exatamente como foi.

O tratamento dado por Proust ao Eu como ultrapassando o estilo dos românticos pode ser bem compreendido se equiparado a primeira pessoa da narrativa de “As Mil e Uma Noites”, com Sherazade abrindo a página do conto em que vira contista e confundindo no Eu próprio o Eu dos personagens, da mesma maneira em que o narrador proustiano dá origem ao livro dentro do livro, confirmando a arte do espelhismo já posta em relevo por Beckett.

Segundo Bernard de Fallois, o personagem proustiano que diz “Eu” na frase de Proust, isto é o narrador, mais do que um personagem estrito deve ser considerado como um tom, permitindo a Proust solucionar sua inquietação intelectual de que nenhum gênero literário lhe servia, mas todos os gêneros lhe apeteciam: “mediante os artigos, os ensaios, as cartas, os comentários, Proust se viu levado quase à força a adotar essa primeira pessoa que irá dirigir adiante todos os seus relatos”.  (…) “Passará quase sem dar-se conta da crítica ao romance, da filosofia às memórias”, tal a arte do personagem que diz “Eu” – equiparado por B. De Fallois ao encantador de “As Mil e Uma Noites”, já que será com esse personagem-narrador que em Proust se confundem todos os “Eu” do romantismo (francês): “o de Michelet e o de Saint-Beuve; o de Chateaubriand e o de Nerval”. É Um e é múltiplo: a primeira pessoa em Proust outorga a unidade de seu estilo, o mais rico e variado que já existiu nas letras modernas.

***

Mas não é tudo. Há notadamente uma defesa apaixonada do que Bernard de Fallois chamou “essa moral singular que subordina a vida do artista unicamente às exigências de sua arte”, que Beckett compreende como sendo o princípio estético efetivo de Proust [4].

Por esta via, a reflexão de Beckett será concentrada na análise do segundo volume de “O Tempo Redescoberto[5] (“Le Temps Retrouvé“), tecido ao redor de “A Recepção da Princesa de Guermantes”, enfocando as passagens iniciais deste cenário, com o narrador proustiano vivendo por monólogos sua experiência artístico-extática da memória in-voluntária.

Será por essa memória in-voluntária que Beckett se deixará fascinar, a tal ponto que, no afã de dimensionar a qualidade originária dessa memória pontual, chega a desenvolver uma interpretação de Proust centrada na imagem da nobreza do trágico, como impossibilidade para alguém possuir o outro. Uma interpretação acentuando a individualidade extrema da experiência artística, tida por incomunicável, elemento de negatividade caracterizando o artista em sua atividade singular.

O tema da ausência, as auto-regulações do capitalismo organizado e

O personagem voyeur

►O sociólogo Lucien Goldmann assinala que a crise da objetividade literária verificada com o esgotamento do romance realista do século XIX se reflete nos escritores de avant-garde, que exprimiriam não os valores realizados ou realizáveis, mas a impossibilidade em formular ou perceber valores aceitáveis em nome dos quais pudessem dar figura poética a uma crítica da sociedade.

O tema da ausência estaria na base do romance da angústia diante de um mundo absurdo e incompreensível (Kafka, Sartre, Camus, incluindo os autores de avant-garde dos anos 60: Ionesco, Beckett, Nathalie Sarraute, Marguerite Duras, Alain Robbe-Grillet …).

Deixando de lado em suas obras a comparação com os romances de Balzac, como marco de referência preferido pelos historiadores acadêmicos da literatura, Goldmann constatou que o tema da ausência tem origem em Marcel Proust, cuja obra romanesca era considerada não- crítica nem de avant-garde, e, desta forma, o sociólogo lançou as bases para a revalorização das leituras propostas no horizonte da avant-garde, como a abordagem desenvolvida por Samuel Beckett, que ensaiei de expor em meu trabalho.

►O caráter de voyeur (espectador anônimo, que compõe inclusive o narrador monológico proustiano) assumido progressivamente pelos indivíduos na sociedade industrial moderna, com o seu mundo administrado girando em torno da comunicação social – o “Sempre Igual”, como dirá T.W. Adorno – constitui a grande transformação social e humana surgida com as auto-regulações do capitalismo organizado, incluindo a passividade crescente, fenômenos esses que o sociólogo do século vinte chama reificação e examina como processus psicossociológico.

Tendo por fundo o impacto social das auto-regulações do capitalismo organizado, o tema da ausência esta na base do romance da angústia diante de um mundo absurdo e incompreensível, que projeta no espectador anônimo (voyeur) a impossibilidade em formular ou perceber valores aceitáveis, em nome dos quais pudessem dar figura poética a uma crítica da sociedade.

►Aliás, lembrem que, desde os anos 40 / 50, deixou de existir definitivamente o mercado da economia  liberal, que cedeu lugar ao papel regulador do Estado através de políticas econômicas, inclusive com políticas de incentivo ao investimento  (“Livre Mercado”), associadas ao fortalecimento de organismos multilaterais de cooperação comercial, a exemplo da OCDE.

Quando se fala de regulação do capitalismo em sentido geral tem-se em vista os esforços para evitar o agravamento das crises: política fiscal (keynesianismo), política cambiária, sistema e regulação financeira, sistema de bancos centrais (política monetária), basicamente.

O Federal Reserve Bank dos EUA, primeiro Banco Central, foi criado em 1913 (na sequência da crise de 1907, semelhante à grande depressão dos anos de 1930), dando início ao Federal Reserve System, foco da política monetária das nações, que possibilitou a reconstrução mundial após 1945.

***

O fragmento exemplar

A constatação de que o tema da ausência tem origem em Marcel Proust tem base na observação de um fragmento que serve de exemplo do que, posteriormente, se tornou o conteúdo essencial da literatura de avant-garde, a saber: um trecho da Primeira Parte (Combray) de Du Cote de chez Swann.

►Com efeito, segundo Goldmann, o fragmento de Combray que situa o tema da ausência é significativo porque, em uma interpretação comparativa do universo proustiano, configura a passagem do “mundo do tempo presente” – compreendendo a descrição do mundo a-temporal da presença total, o mundo da epopéia e da infância –, por um lado, para o “mundo do tempo perdido” – o mundo romanesco da sociedade parisiense -, por outro lado.

Tal passagem originária de um mundo a-temporal para outro mundo temporal, pela qual Proust começa Combray, se faz através de uma caminhada que o narrador proustiano então criança percorre pela primeira vez, depois de sempre ter ido para os lados de Méséglise, na direção de Guermantes, cuja particularidade é deixar ver um rio conhecido por La Vivonne que leva ao exterior, para o mundo onde se desenrolará o restante do relato.

É neste passeio, nesta caminhada do narrador que Goldmann situa o fragmento considerado exemplar da literatura de avant-garde, em que o tema da ausência estaria posto em relação ao olhar de uma jovem mulher observada furtivamente pelo narrador e vivendo em um sítio, designado por Goldamann como “sítio da ausência” a fim de pôr em relevo a situação de anonimato descrita pelo narrador ao nos dizer que a jovem mulher tinha perfil circunspeto, coberto por véus elegantes que não eram deste país e que ela teria vindo, “conforme a expressão popular”, se enterrar lá, desfrutar o prazer amargo de sentir que o seu nome, “sobretudo o nome daquele de quem ela não houvera conseguido preservar o coração, ali era desconhecido (…)”.

►Situação de anonimato esta cujo caráter intencional o narrador proustiano voyeur imagina em sua furtiva observação indiscreta, igualmente anônima e velada, dizendo-nos que a jovem mulher desfrutava dessa situação quando erguia os olhos distraidamente ao ouvir por trás das árvores do riacho as vozes dos passantes, “de quem, antes que ela tivesse percebido seus rostos, ela podia ter a certeza de que jamais haviam conhecido nem conheceriam o infiel, de que coisa alguma no passado deles guardava sua marca; de que coisa alguma no porvir deles teria a ocasião de recebê-la”.

E o narrador proustiano, sem ser visto, prossegue olhando-a retornar de algum passeio, por algum caminho onde ela sabia que ele (o infiel) não passaria, e descreve as impressões que sentiu vendo-a, sem ser visto, tirar das suas mãos resignadas longas luvas de uma graça inútil.

Diz-nos sentir que, no seu desprendimento, havia ela voluntariamente trocado os lugares onde teria que perceber o mínimo daquele que amava, por estes (lugares) que jamais o haviam visto.

A acentuada dificuldade em descrever a biografia e a psicologia do personagem, sem limitar-se ao anedótico ou ao fato diverso, deve-se a que se vive numa sociedade em que o indivíduo como tal e, implicitamente, sua biografia e sua psicologia perderam toda a importância verdadeiramente primordial.

Entretanto, na sociologia de Goldmann o tema da ausência liga-se não só ao estudo dos personagens, mas à análise dos gêneros literários, em especial à análise da ligação que o romance pode ter com a sociologia econômica e neste quadro, liga-se à análise da passagem do romance clássico ao novo romance do século XX.

Buscando caracterizar a perspectiva do escritor nesse processus, a abordagem de Goldmann é a seguinte: (a) se é certo que os hábitos psíquicos, as estruturas mentais e as categorias mentais antigas, persistindo na consciência da maior parte das gentes, impedem-nas de apreender a realidade nova; (b) e se essa realidade nova é essencial na medida em que estrutura efetivamente a vida cotidiana, mesmo se muita gente disso não é consciente; (c) seria muito imaginativo supor que, em face desta realidade nova, realidade essencial, só restasse ao escritor um simples deslocamento de interesse na direção dos setores surgidos com o correlativo esclarecimento dos antigos problemas de composição.

Vale dizer, Goldmann se opõe ao argumento que pretende explicar a orientação de Joyce, Proust ou Kafka para setores da realidade mais finos ou mais sutis abrindo o caminho do novo romance em razão simplesmente de terem Balzac e Stendhal analisado a psicologia do personagem e, por este procedimento, terem generalizado e tornado banal o seu conhecimento, privando o personagem de interesse psicológico para os escritores posteriores.

Segundo Goldmann, a acentuada dificuldade em descrever a biografia e a psicologia do personagem sem limitar-se ao anedótico ou ao fato diverso deve-se a que se vive numa sociedade em que o indivíduo como tal e, implicitamente, sua biografia e sua psicologia perderam toda a importância verdadeiramente primordial e foram deslocados para o plano da anedota e do fato diverso.

****

Figura trágica e voz moral:

O problema do mundo romanesco da sociedade parisiense

► Malgrado suas análises da experiência artística narrada por Proust no mencionado Segundo Volume, Beckett surpreende com sua postura categórica ao deixar na sombra o Primeiro Volume de “Le Temps Retrouvé“, e ao sustentar que Proust não escreve como artista nas passagens que tratam sobre a guerra de 1914-1919, isto é, exatamente nesse Primeiro Volume. Seria como se a abordagem estética filosófica ela própria não dispusesse de alcance para integrar tal escrito no prolongamento da reflexão artística, o que evidentemente está a exigir um balanceamento crítico que não poderia deixar escapar neste ensaio.

A abordagem desenvolvida por Beckett visa acentuar o efetivismo como procedimento composicional, decorrente da identificação da moral do artista ao princípio estético, constituindo por este viés a figura trágica caracterizada pelo homem identificado à criatura que “conhece aos demais só em si mesmo e mente se afirma o contrário”.

Com certeza, houvera de início que distinguir as conjecturas básicas para aproximar as relações com o autor Proust, supostamente tornado desinteressante e privado do élan artístico outrora interveniente no Segundo Volume, comentado aqui nos capítulos anteriores.

Com efeito, em face de tal posicionamento marcadamente negativo, acolhendo expressamente uma desclassificação crítica do Primeiro Volume de Le Temps Retrouvé“, o leitor comum em sua reflexão encontra-se sem saber que orientação deve assumir, e indagará certamente o seguinte:

(a) Será aplicável a distinção entre o artista e o escritor?

(b) Caso sim, de que modo e em que extensão se poderá aplicá-la?

(c) O Proust do Primeiro Volume é “outro”?

(d) Este Proust “outro” manifestar-se-ia ao longo de toda a obra?

(e) Ou, finalmente, se manifestaria unicamente em certas passagens?

Nessa alternativa última teríamos, talvez, uma dualidade entre o Proust artista e escritor, por um lado, e, por outro lado, o Proust “outro”.

O Primeiro Volume de “Le Temps Retrouvé

►Já vimos que a abordagem desenvolvida por Beckett visa acentuar o efetivismo como procedimento composicional, decorrente da identificação da moral do artista ao princípio estético, constituindo por este viés a figura trágica seguinte: “ao artista só a arte interessa”.

Se considerarmos que a abordagem pelo efetivismo integra a observação de Beckett acima mencionada, de que, no Primeiro Volume, Proust não escreve como artista, e que tal afirmação deve ser entendida como contrapondo, de um lado, a figura trágica, e, de outro lado, a voz moral que se diferencia nas passagens sobre a guerra de 1914-1919, seremos, sem dúvida, levados a admitir a dualidade (não o dualismo) no Primeiro Volume de “Le Temps Retrouvé”.

Para Beckett, “não há nem bem nem mal, nem em Proust nem em seu mundo”, à exceção das passagens que tratam sobre a guerra (1914 / 1919), donde, por um momento, Proust deixaria de ser artista para “levantar a voz com a plebe”.

Com efeito, a compreensão sugerida por Beckett é a seguinte: “não há nem bem nem mal, nem em Proust nem em seu mundo”. Admite-se, porém, uma exceção supondo que tal proposição amoralista não alcance as passagens que tratam sobre a guerra, donde por um momento Proust deixaria de ser artista para “levantar a voz com a plebe, a multidão, a chusma, a gentalha” – o que explicaria tal mudança de rumo do autor Proust.

Ao colocar a interveniência da voz moral como exceção no mundo de Proust, a estética reafirma a prevalência da figura trágica como regra de interpretação, repelindo assim a dualidade em favor da complementação (toda a regra tem exceção).

Quer dizer, a análise do Primeiro Volume de “Le Temps Retrouvé” teria que enfocar essa diferenciação da voz moral, teria que distinguir as respectivas passagens que, por monólogos ou não, narram sobre a guerra ou sobre a vida no mundo proustiano dos Salões elegantes – ambiência imaginária do mundanismo sobre os anos anteriores à década de vinte – mas, ao lado de tal ambiência, dão expressão a um narrador falando dos personagens da plebe, vocalizando a moral peculiar à mesma, e descrevendo situações do homem da multidão, os caracteres da chusma e da gentalha.

Tais passagens compostas são efetivamente encontradas no texto de “M. De Charlus durante a guerra; suas opiniões, seus divertimentos”, que dá título ao mencionado Primeiro Volume de “Le Temps Retrouvé”, cuja Introdução, ademais, leva o subtítulo “Tansonville”, cabendo desde logo sublinhar, a fim de evitar os mal-entendidos, que, excluindo notadamente as passagens sobre a cena do hotel de Jupien, se trata de voz moral unicamente nas passagens com a governanta Françoise[6]·.

Em estado de regra geral, e dentre suas múltiplas facetas, a figura trágica [7]é caracterizada pelo homem identificado à criatura que “conhece aos demais só em si mesmo e mente se afirma o contrário”, figura que se plasma na composição do texto sobre “M. De Charlus…”.

        A visão de Albertine surge em perspectiva, não só no mundo da infância e adolescência do narrador, mas alcança o mundo adulto da sociedade dos salões e seu contraste.

Para-além das metáforas sobre os personagens, nesse texto se trata sim da figura das relações entre o narrador e Albertine, figura que já vimos referida na descrição da relação humana central compreendendo “dois dinamismos separados e imanentes não relacionados por sistema nenhum de sincronização”.

A visão de Albertine penetra toda a narrativa de Proust e pode ser detectada notadamente nas alusões a Balbec e Combray, já que sobrepuja a imagem da avó.

***

Sumário
A interconexão metapsicológica……………………………………………..11
O sujeito da expressão involuntária ………………………………………..14
O esnobismo proustiano como complexo ………………………………..15
Para-além do freudismo ………………………………………………………..17
A individualidade extrema do artista………………………………………..21
Centralidade do tema da desilusão…………………………………………22
A forma de percepção artística……………………………………………….24
A moral do artista como princípio estético………………………………..27
Ou a necessidade de arte ……………………………………………………..27
O monólogo em “Le Temps Retrouvé” …………………………………….31
Desatenção e encantamento …………………………………………………34
A ação sublime …………………………………………………………………….37
O leitmotiv proustiano……………………………………………………………40
A escavação poética …………………………………………………………….43
O sonho poético do Paraíso Perdido ………………………………………46
O caráter fictício da alma total………………………………………………..51
Sentimento e Individuação …………………………………………………….56
A Multiplicidade Plástica………………………………………………………..58
O Tormento Recíproco ………………………………………………………….61
Amor e Sofrimento ……………………………………………………………….63
O Calvário Invertido………………………………………………………………67
O Éxtasis Artístico ………………………………………………………………..71
O Modelo da Duplicação ……………………………………………………… 74
O Efetivismo de Proust………………………………………………………… 76
A obra de arte como preexistente ao artista……………………………. 77
O objeto desprovido de causalidade ……………………………………… 81
Figura trágica e voz moral ……………………………………………………. 85
O tema literário do tédio ………………………………………………………. 88
O Hábito Conversador como Obstáculo…………………………………. 90
O mundanismo constitui um problema crítico literário em Proust . 90
A intuição literária constringida……………………………………………… 93
O desejo de exibir-se…………………………………………………………… 96
O prosaísmo …………………………………………………………………….. 100
A primeira pessoa……………………………………………………………… 102
Diletantismo……………………………………………………………………… 104
O Folhetim ……………………………………………………………………….. 106
Personalidade e Irracionalidade ………………………………………….. 109
A virtuosa fealdade ……………………………………………………………. 113
Notas complementares………………………………………………………. 116
►Nota sobre “Vontade de Finalidade” ………………………………… 116
►Nota sobre o episódio da “madeleine” ……………………………… 117
►Nota sobre Proust e os Românticos…………………………………. 122
►Nota sobre a Voz Moral em Proust ………………………………….. 123
►Nota sobre as edições das obras de Proust ……………………… 123
►Nota sobre o tipo de relações dos Salões proustianos……….. 124
O autor Jacob (J.) Lumier……………………………………………………


[1] Beckett, Samuel:Proust, Londres, Evergreen Books, 1931. (versão em espanhol). Publicado depois por Grove Press Inc., New York.

[2] Theodor W. Adorno: “Prismas: la Critica de la Cultura y la Sociedad”, tradução de Manuel Sacristán, Barcelona, Ariel, 1962, 292 Págs. Op Cit.

[3] Ver Lumier, J.J.: (2010) “A Utopia Negativa: Leituras de Sociologia da Literatura“, Edición electrónica gratuita. Texto pdf, 158 págs. completo en  www.eumed.net/libros/2010e/819/   Op.Cit.

[4] Veja o “Prólogo” de Bernard de Fallois ao “Contre Saint-Beuve”, de Proust. Como sabem as obras de Proust apareceram já em 1896: “Les Plaisirs et les Jours”; sendo entre 1896 e 1904 que veio a ser elaborado o romance “Jean Santeuil”, e entre 1908 e 1910 o ensaio “Contre Saint-Beuve”. Em 1910, Proust começa a escrever “A La Recherche du Temps Perdu”, tendo aparecido em 1913 o primeiro volume intitulado “Du Côté de chez Swann”, que formava composição ternária então anunciada com “Le Côté des Guermantes” e com “Le Temps Retrouvé”. Sua obra em 13 volumes foi concluída em 1922, coincidindo com a data em que Proust se foi, mas os volumes continuaram aparecendo até 1927.

[5] Veja a versão em língua portuguesa por Lúcia Miguel Pereira, “O tempo Redescoberto”, Globo, São Paulo, 1998.

[6] Sobre a voz moral vejam as Notas Complementares, no final.

[7] Já assinalamos a derivação direta do tema do sofrimento como proveniente do próprio modo de ser do artista, personificado no narrador como elemento da figura trágica, inseparável da “impossibilidade na posse do outro”, núcleo da tragédia de Albertine.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: