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Educação e Leitura

May 8, 2013

“O importante é ler, ler de tudo, ler sempre, mas textos que valham a pena e somem ao processo de complexificação da subjetividade do leitor”

leitura

Apesar da agenda corrida, o professor Ezequiel foi incrivelmente solícito em responder ao Pesquisa Mundi, questões relacionadas a educação e tecnologia, apresentadas a seguir.

PESQUISA MUNDI: Como é possível uma integração entre professores e bibliotecários na mediação de leitura?

EZEQUIEL THEDORO DA SILVA: Cabe sempre lembrar que, em termos quantitativos, existe um grande desequilíbrio entre o número de professores e o número de bibliotecários trabalhando em nosso país. Além disso, o escopo de atendimento de estudantes por parte de um professor é quase sempre maior do que o do bibliotecário. Mesmo considerando tais desnivelamentos, acredito que a integração e a aproximação desses dois profissionais deveriam acontecer mais intensamente quando das discussões voltadas ao Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola – no momento em que o trabalho pedagógico se estende para fora das paredes da sala de aula e penetra naqueles espaços onde as buscas por informação, as pesquisas de fontes diversas, as seleções de textos para o cumprimento de diferentes finalidades da leitura, etc. são contempladas como possibilidades concretas. Daí eu defender a ideia de que a dinamização, utilização, abastecimento, equipamentos, etc. de uma biblioteca escola deva ser um componente de destaque no referido Planejamento, juntando dinamicamente os professores das várias disciplinas com o(s) bibliotecário(s); dessa forma e bem sublinhado no PPP, a biblioteca deixa de ser um apêndice ou um órgão apenas agregado no ambiente escolar, transformando-se num componente ativo das dinâmicas de aprendizagem, no horizonte daquilo que a escola pretende ou almeja como finalidades primeiras para as práticas de leitura dos estudantes. Cabe sempre lembrar que existe uma dimensão biblioteconômica no trabalho pedagógico (do professor) e uma dimensão pedagógica no trabalho biblioteconômico (do bibliotecário) – ambos os profissionais trabalham ou deveriam trabalhar com o mesmo objeto, ou seja, o ato de ler – ato este que é um dos pilares do letramento dos estudantes e, talvez, de toda a aprendizagem, de todo o desempenho decorrente das atividades escolares.

PM: Pesquisa recente aponta que quase metade dos docentes não leem livros em seu tempo livre, e que provavelmente esta mesma realidade se aplica aos bibliotecários. Existe alguma perspectiva para que este cenário chocante mude, já que estes educadores têm certa responsabilidade em transferir o gosto pela leitura aos alunos?

ETS: Educadores e bibliotecários não têm “certa” responsabilidade, mas sim uma “grande dose” de responsabilidade no que se refere à formação de leitores em qualquer sociedade letrada. Isto porque, em termos de responsabilidade social, esses dois profissionais são – ou deveriam ser – os mediadores privilegiados na introdução das novas gerações ao mundo da escrita e na condução das mesmas para que, através do trabalho pedagógico, elas se ambientem e se movimentem socialmente através do manejo de todos os bens que são próprios desse universo, de um simples anúncio de jornal às usufruição das obras literárias mais densas e sofisticadas. Particularmente, tendo em mim encarnado, há bastante tempo, o valor “esperança”, acredito que a sociedade, ao tomar consciência da divisão social do trabalho e da qualificação dos profissionais, saberá exigir mais qualidade da escola e, mais especificamente, daqueles mediadores cuja responsabilidade ou função é ensinar as competências, habilidades, destrezas, etc. que são necessárias ao manejo da escrita, em termos de recepção e produção.

PM: Em sua opinião, há uma idade certa para os estudantes serem apresentados às novas tecnologias?

ETS: Tenho combatido a adultização das crianças pela sua sujeição às atividades reclusas das escolas. A sociedade da pressa e da velocidade deseja que a criança seja introduzida a atividades de aprendizagens escolarizadas cada vez mais cedo, sacrificando principalmente o conhecimento do mundo pelo brincar, pelo apalpar os objetos concretos e pelo interagir com os seus grupos etários de referência. Além disso, sou contrário a qualquer “babá eletrônica”, isto é, tentar substituir o aconchego, a convivência e o diálogo familiar por uma tecnologia da moda (TV, computador, etc.). Portanto, garantidos, primeiro, o direito da criança em viver intensamente a sua infância e, segundo, o amor bem cultivado no seu contexto familiar, creio que a idade mais adequada para o usufruto das novas tecnologias pelas crianças será uma decorrência natural, sem que uma coisa seja uma substituição ou uma sublimação da outra. Também acho que máquina nenhuma é capaz de ensinar valores, igual aos seres humanos de carne e osso.

PM: O que podemos fazer, para ter uma leitura crítica quando o recurso utilizado é a internet?

ETS: A leitura crítica, enquanto uma constelação de atos da consciência e de competências do leitor, pode ser utilizada junto a qualquer veículo de comunicação e/ou suporte de texto. Dessa forma, se bem aprendida como decorrência de ações de várias instâncias (família, escola, etc.), a leitura crítica poderá se aplicada à análise de todas as mensagens que circulam pelas veias de uma sociedade. Dessa forma, posso ler criticamente as mensagens virtuais da internet, sabendo separar o lixo que corre por através desse veículo; posso ler uma telenovela, sabendo quando ela deixa de atender aos requisitos da fantasia e passa a servir à ao mercado e à alienação; posso ler um artigo de jornal, sabendo distinguir fato de opinião e assim por diante. O importante, me parece, é que a leitura crítica seja objetivamente ensinada pelos organismos ligados à educação e recorrentemente praticada diante dos conteúdos que circulam pelos meios de comunicação. E sempre é bom lembrar que a crítica é, na verdade, um modo de ser no mundo – um modo de ser das pessoas que combatem as predeterminações, as verdades únicas, os desmandos, os processos de imbecilização em massa, etc. e procuram construir mundos saudáveis, democráticos, humanizados, civilizados, etc.

PM: O que o professor acessa e recomenda na internet?

ETS: Confesso que a internet me serve hoje a diferentes propósitos e múltiplas finalidades: desde um número de telefone (que eu anteriormente consultava numa lista impressa, construída em ordem alfabética) até um percurso de viagem (que eu anteriormente consultava em mapas rodoviários e similares). Acho que as consultas permitidas pelo advento da internet são exponenciais, sendo difícil estabelecer os seus limites ou as suas fronteiras nos dias de hoje. Participo de algumas redes (Twitter, Facebook, principalmente) para facilitar a minha comunicação com amigos e familiares e através das mesmas divulgo algumas das minhas produções; o e-mail e o Skype substituíram quase 100 por cento dos meus telefonemas; fóruns de pesca esportiva me permitem o diálogo com amigos de caravana. E por aí vai! O que recomendar na internet? Realmente fica difícil dizer mesmo porque as minhas navegações atendem a um rol amplo de motivações, que vão da pesquisa para a produção de novos conhecimentos até os sites de guitarra-jazz em rádios norte-americanas. Além disso, venho mantendo dois potentes sites: www.leituracritica.com.br e www.pescarte.com.br, com as suas respectivas revistas eletrônicas, que me dão um trabalhão danado para manter a periodicidade. Enfim, preferiria recomendar com base no critério da sazonalidade ou então no critério da área de conteúdo, sendo que hoje existe um conjunto imenso de excelentes sites que tratam das minhas paixões pessoais: a leitura, os livros, a pesca recreativa e a música. A minha lista de “preferidos” não é nada pequena e é sempre renovada à luz dos critérios acima citados.

PM: Como o professor avalia a chegada do tablets às salas de aula?

ETS: No geral, sou a favor de todo e qualquer ferramenta que venha a somar valor ou qualidade ao processo de ensino-aprendizagem. Nestes termos, se essa ferramenta não for tomada como um fim em si mesmo ou como um modismo, mas sim como um instrumento enriquecedor da educação escolarizada, não vejo por que deva ser barrada ou impedida de ter a sua presença e o seu uso pelos estudantes numa sala de aula. Dessa forma, que venham os computadores, as lousas digitais, os tablets, os celulares, etc. para elevar o nível da educação brasileira, mas sempre como “meios” para a qualificação de todos os processos relacionados ao ensino-aprendizagem. E devemos cuidar para não cairmos num neo-tecnicismo, quer dizer num novo tecnicismo, enaltecendo as ferramentas, as técnicas, os laboratórios de informática, etc., secundarizando ou apagando os sujeitos que os manipulam e os usam para determinadas finalidades sociais – vivemos intensamente o tecnicismo na década de 1970 e essa experiência nada melhorou o trabalho das escolas brasileiras.

PM: O livro digital tem conquistado cada vez mais leitores no Brasil, como o professor avalia a chegada dos e-readers como o Kobo e o Kindle?

ETS: Cada leitor tem o direito de escolher o suporte de texto que melhor lhe convier e com o qual se sinta melhor na consecução de suas práticas de leitura. Confesso que não conheço o Kobo. Comprei um Kindle, mas não me acostumei com ele e logo o vendi. E confesso também que tenho dificuldade muito grande para ler textos densos e longos na tela de um e-reader ou mesmo na tela do meu computador – prefiro o tradicional formato do livro impresso para ler romances e textos técnicos, inclusive porque gosto de marcar trechos, puxar ideias nas margens e coisas assim. Entendo que os nativos da internet tenham desenvolvido novas formas de ler e de interagir com os textos, preferindo muitas vezes os textos de natureza digital nos suportes que atualmente os acomodam – respeito essa preferência, pois, para mim, o importante é ler, ler de tudo, ler sempre, mas textos que valham a pena e somem ao processo de complexificação da subjetividade do leitor.

PM: O professor lê em formato eletrônico, aderiu a esta nova prática? 

ETS: Confesso que me adaptei bem aos textos eletrônicos, mas não consigo ter fluência de leitura com todos os gêneros de escrita via computador e internet. Ainda gosto de pegar as páginas impressas do jornal no meu café da manhã, gosto de levar livros impressos nas minhas viagens, gosto de ler uma receita no velho caderno da minha avó quando me arrisco numa culinária, mas também gosto de ler as minhas correspondências no meu Outlook Express, de falar vez ou outra com um amigo via Facebook ou Skype. Quer dizer, procuro acompanhar a evolução dos tempos, sem perder o sabor das coisas e as maneiras de ser que valem a pena manter na tentativa de desenvolver a uma convivência social  que seja ao mesmo tempo saudável, prazerosa e produtiva.

PM: Recentemente o professor lançou uma editora, a Edições Leitura Crítica. Fale-nos um pouco sobre ela.

ETS: Fui Diretor-Executivo da Editora da Unicamp por mais de dois anos: uma experiência que me permitiu conhecer a fundo todas as fases de produção de um livro. Depois que deixei esse cargo e, mais adiante, de ter me aposentado da Unicamp, sempre mantive um desejo de possuir a minha própria uma editora. Três anos atrás me lancei como editor, apresentando as obras editadas pela Leitura Crítica numa livraria acoplada ao Portal Leitura Crítica. Já temos 15 obras editadas e esse trabalho me permite uma ocupação inteligente do meu tempo de aposentado e, ao mesmo, uma colaboração para com o avanço das produções científicas sobre a leitura em nosso país. É uma alegria imensa ver um livro sair do forno, depois de ter passado pelos processos de sua produção e agora prontinho para circular e dinamizar ideias entre os leitores.

Ezequiel Theodoro da Silva, atua como professor – Possui Graduação em Língua e Literatura Inglesa pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1971), Mestrado em Educação  – Leitura – University of Miami (1973), Doutorado em Educação  (Psicologia da Educação) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo  (1979) e Livre-docência em Metodologia do Ensino (1994) pela Faculdade  de Educação da Unicamp. Colaborador voluntário na  faculdade de Educação da Unicamp. Entre as funções mais importantes que exerceu, estão as de secretário municipal de Cultura, Esporte e Turismo de Campinas, e secretário municipal de Educação de Campinas, diretor-executivo da Editora da Unicamp, e coordenador da Biblioteca Joel Martins e presidente da Associação de Leitura do Brasil (ALB) por várias gestões. Produziu mais de 30 livros e centenas de artigos que tematizam, fundamentalmente, as práticas de leitura no território brasileiro. Atualmente, integra o Grupo de Pesquisa Alfabetização, Leitura e Escrita (Alle), da Faculdade de Educação da Unicamp.

Fonte: http://www.pesquisamundi.org/2013/05/entrevista-ezequiel-theodoro-da-silva.html

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