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Resumo de a arte do monólogo interior

December 19, 2011

A Moral do Artista: Leitura de Proust

por

Jacob (J.) Lumier

Em seu ponto de partida, o sociólogo toma o objeto literário como configuração de valor, na qual não é somente certo número de ideias que se encontram dotadas da máxima eficácia estética, mas também certo número de emoções.

Desta forma, ao se orientar para a apreensão do desejado em literatura, o sociólogo assume um ponto de vista interior ao fato literário, trazendo para o campo sociológico as experiências individuais indiretas e variadas de todos os subterfúgios, achados, disfarces, fugas, simulações, etc.

Isto não quer dizer que os ensinamentos sejam desprezados em favor da fantasia.  Se as experiências literárias podem aportar alguma “lição”, importa que os indivíduos reconheçam tais experiências indiretas porque, em sua engenhosidade, delas se ocupam.

►Em relação à sociologia da literatura do século XX, há um aprofundamento no individualismo para focar-se na própria individuation burguesa, na possibilidade mesma do que constitui ou diferencia um indivíduo de outro indivíduo em contexto de alienação.

Admite-se que a objetivação do humano nas estruturas correlaciona-se ao surgimento da subjetividade, como aspiração aos valores que, entretanto, restam em estado de aspiração, compreendendo uma cultura difusa, vaga, sem pertença, uma cultura que não se individualiza.

Daí a simples subjetividade como pensamento letargado, perplexo, chegando à ataraxia, a qual não deve ser confundida às alienações mentais subjetivas, esquizofrenias ou delírios patogênicos em face da realidade, frequentemente provocados no envolvimento do indivíduo em alternativas irreconciliáveis para o sentimento de felicidade.

Embora haja domínio conexo entre a estética sociológica e as teorias metapsicológicas, o alcance crítico da sociologia literária sobressai. Tanto que, ao pesquisar a composição romanesca em seu contexto de alienação (cultura que não se individualiza, consciência projetada para fora), o sociólogo observa que a busca da individuação é colocada diante da coisificação (forma do caráter de mercadoria assumido pela relação entre os homens), não somente como (a) condição da ruptura libertadora – portanto condição negativa –, mas (b) como forma positiva, isto é, forma que torna objetivo o trauma subjetivo (torna objetiva a consciência desprovida de autoafirmação).

Tal o sentido positivo da coisificação – formulado acima no “item b” – para a busca da individuação em literatura romanesca: forma do caráter de mercadoria assumido pela relação entre os homens. Daí a idealização de um retorno à memória da infância, que fixa um tempo perdido, quase uma tendência à introspecção, ao fechamento, de que nem Proust nem mesmo o freudismo escaparam.

► O interesse da leitura sociológica porta sobre o problema da crise de objetividade literária, que atingiu o romance no século vinte em face da maior importância da reportagem para o realismo, problema tratado por Beckett [1]já nos começos dos anos 1930, exatamente em seu notável ensaio sobre Proust, que me serve de referência, no qual apresenta um esclarecimento sobre o procedimento artístico literário que aprofunda o monólogo interior.

De fato, em modo equiparável a T. W. Adorno, que atribui o efeito de rebaixar o mundo exterior à recordação da infância, como criação do narrador monológico [2], Beckett enfrentará, por sua vez, a questão de descrever exatamente a maneira pela qual esse efeito redutor atribuído à arte do monólogo, como recordação, pode levar à descoberta, criação ou afirmação da realidade como autêntica.

Tal a compreensão sociológica que orientou minha elaboração de “A Moral do Artista”. Aliás, meu trabalho sobre Proust foi concebido para ilustrar a aplicação das observações críticas sobre a ideologia do Futurismo, elaboradas no meu livro “A Utopia Negativa: Leituras de Sociologia da Literatura“, publicado junto à Universidade de Málaga, Espanha, cuja versão em e-book é acessível em http://eumed.net/libros/2010e/819/index.htm

►Como já assinalei em escrito anterior [3], no âmbito da ambiguidade do romance como técnica de comunicação, a arte do monólogo interior deve ser compreendida: (a) – como um momento da corrente da consciência que abrange todo o externo; (b) – ancorada numa recordação da infância, permitindo ao narrador monológico fundar um espaço interior, e com isto evitar a falsidade do tom que se finge familiar com o mundo externo, elidindo assim a pretensão de conhecimento que o romance deve excluir.

Por outras palavras, na ambigüidade do romance, o monólogo interior tem a função básica de evitar o discursivo, a narrativa do “foi assim”, a pretensão de que o narrador sabe exatamente como foi.

                          O narrador monológico busca fundar um espaço interior, a fim de evitar a falsidade do tom que se finge familiar com o mundo externo, elidindo assim a pretensão de conhecimento, que o romance deve excluir.

O monólogo interior tem a função básica de evitar o discursivo, a narrativa do “foi assim”, a pretensão de que o narrador sabe exatamente como foi.

O tratamento dado por Proust ao Eu como ultrapassando o estilo dos românticos pode ser bem compreendido se equiparado a primeira pessoa da narrativa de “As Mil e Uma Noites”, com Sherazade abrindo a página do conto em que vira contista e confundindo no Eu próprio o Eu dos personagens, da mesma maneira em que o narrador proustiano dá origem ao livro dentro do livro, confirmando a arte do espelhismo já posta em relevo por Beckett.

Segundo Bernard de Fallois, o personagem proustiano que diz “Eu” na frase de Proust, isto é o narrador, mais do que um personagem estrito deve ser considerado como um tom, permitindo a Proust solucionar sua inquietação intelectual de que nenhum gênero literário lhe servia, mas todos os gêneros lhe apeteciam: “mediante os artigos, os ensaios, as cartas, os comentários, Proust se viu levado quase à força a adotar essa primeira pessoa que irá dirigir adiante todos os seus relatos”.  (…) “Passará quase sem dar-se conta da crítica ao romance, da filosofia às memórias”, tal a arte do personagem que diz “Eu” – equiparado por B. De Fallois ao encantador de “As Mil e Uma Noites”, já que será com esse personagem-narrador que em Proust se confundem todos os “Eu” do romantismo (francês): “o de Michelet e o de Saint-Beuve; o de Chateaubriand e o de Nerval”. É Um e é múltiplo: a primeira pessoa em Proust outorga a unidade de seu estilo, o mais rico e variado que já existiu nas letras modernas.

***

Leia a continuação.

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