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Política e Literatura

February 24, 2010



A aspiração aos valores como afirmação do caráter político na Leitura sociológica da obra literária de James Joyce.

Nas análises de Ernst Bloch a arte e a literatura de avant-garde são apreciadas desde o ponto de vista dos materiais e procedimentos de composição em vista de equacionar o problema da objetividade. Paralelamente aos críticos da cultura, Ernst Bloch dá prioridade ao expressionismo autêntico e ao surrealismo, vê a experiência da individuação na modernidade como penetrada pela coisificação, porém, diferente de T.W. Adorno relaciona a montage ao sonho.

Não que Ernst Bloch se contraponha ao existencialismo ou dê acolhida aos chamados freudismos do surrealismo. Pelo contrário. A seu ver, as teorias psicológicas desvalorizam a objetividade em arte. Os elementos de sonho que Ernst Bloch aborda ultrapassam ou não se limitam a uma aplicação do inconsciente pecaminoso da psicanálise. Em suas análises, os surrealistas buscavam originalmente um só objetivo que era o de introduzir os elementos de decomposição nos interstícios do mundo deste tempo de modernização, sendo a esses elementos que se aplica a palavra sonho.
Tais elementos não são restritos à vida anímica dos indivíduos, mas, integrando a realidade estética da cultura – realidade aberta – são passíveis de serem inseridos artisticamente nos interstícios do mundo contemporâneo (que inclui a coisificação), exatamente como elementos intrínsecos e fatores endógenos da sua própria decomposição.
Daí a utilização de Kafka como termo de comparação em torno de um esforço comum de verificação simbólica e de busca de um mais-além no surrealismo e na literatura de avant-garde.
Vale dizer, como o filme mudo que aporta simultaneamente um monte de coisas inúteis e sonho, nas fontes do surrealismo se distinguem os aspectos esotéricos dos símbolos que não conduzem mais para um mundo mais-além, e somente encarnam pressentimentos arcaicos e utópicos que estão imbricados nas porosidades do mundo contemporâneo que é o deste tempo.

A compreensão estético-sociológica do surrealismo e da literatura de avant-garde busca a montage de um espaço contemporâneo fissurado.

Na obra de Ernst Bloch, que é um pensador da utopia positiva com suas categorias crítico-históricas em molde teológico imbricadas na efetividade da interpenetração do arcaico e do histórico na consciência coletiva, a reflexão da criação poética começa pela constatação do vazio cultural na situação da distração disseminada com a modernização acelerada nos anos Vinte.
Desse modo, caracteriza-se em reflexão de filosofia estética o que os sociólogos chamam fatiga do simbolismo social e que para o nosso autor, atento à dicotomia das formas de vida rural-tradicional e urbano-moderna, exige constatar a ocorrência de símbolos esotéricos, fechados, obscuros .
Por este tornarem-se opacos dos símbolos sociais, observa-se que, com a arte de Kafka, ressurge em feitio estranho a diferenciação e a confusão entre um mundo absorvido na realidade histórica, por um lado e, por outro lado, um mundo até então situado no mais-além.
Em estado de mundo absorvido, nota-se o reflexo de antigos interditos, de antigas leis e de velhos demônios da ordem, como que a fluírem nas águas subterrâneas dos pecados e dos sonhos pré-israelitas que afloram à superfície nos períodos de decadência.
No espaço do mundo até então situado no mais-além, observado nos romances de Kafka como Le Chateau ou Le Procés, destaca-se a forma durável de uma mitologia de dependências insuperáveis, de ordens estamentais estranhas e longínquas que jamais alguém pode examinar.
Para Ernst Bloch, essa distinção em dois níveis na realidade histórica da consciência coletiva no período da decadência da cultura burguesa , revela respectivamente que raramente neste mundo deste tempo os sentimentos do medo e da piedade foram tão estritamente reaproximados, sendo a esta confusão de medo e piedade que se buscam os elementos de decomposição que são ao mesmo tempo os elementos do sonho e aos quais se refere a compreensão poético-sociológica do surrealismo e da literatura de avant-garde ou que lhe é afim, como configurações de um espaço contemporâneo fissurado.

Como a imagem surrealista de um tumor crescendo no vazio, a busca de materiais estéticos em meio à confusão de medo e piedade configura um esforço poético de construção onírica, bem notado em Julien Green, Marcel Proust, James Joyce.

Lembrando a imagem surrealista de um tumor crescendo no vazio, se remarca que, com essa busca de materiais artísticos em meio à confusão de medo e piedade, trata-se de um esforço poético de construção onírica.
Segundo Ernst Bloch, esse esforço poético pode ser bem notado em escritores como Julien Green – elaborando a construção onírica da vida sufocante e morna que se conserva de parte – ou Marcel Proust, elaborando a construção onírica da memória na hora ampliada da agonia como o objetivo de toda uma vida; ou ainda, James Joyce, elaborando por sua vez a construção onírica da montage, onde se reencontram as ruínas do presente.
Não se deve deixar de notar, entretanto que, por detrás dos afundamentos recortados nessas construções oníricas há o envolvimento pela obscuridade do vazio cultural no período de decadência da cultura liberal e do individualismo – de que a confusão dos sentimentos de medo e piedade dá repercussão.
De acordo com os comentários de Ernst Bloch , o espaço contemporâneo fissurado que é pintado nas metáforas de Julien Green corresponde a um Eu de quem o medo se apossou e que é torturado por seus sonhos. Todavia, é também o espaço de uma ação desprovida, tornada inteiramente reduzida a indivíduos privados de toda a comunidade, seres humanos estúpidos como as bestas que, porém, se tornam grandes como os afrescos ou como as paisagens, pois cada um dentre eles representa uma paixão.
Então, só há paixões solitárias, só há, seduzindo, o destino disfarçado desta paixão. Não há saída alguma. A sedução, o enfeitiçamento é compacto e suga inteiramente seus suportes humanos. Nesse espaço contemporâneo pintado poeticamente por Julien Green reina um odor de folhas mortas, cheira a cômodos trancados cujos ocupantes parecem jamais sair.
Quanto ao espaço contemporâneo fissurado em Proust, em virtude da finesse e da micrologia em sua mirada que a tudo recolhe, parece mais saliente o que Ernst Bloch chama sonho no objeto, designando a qualidade poética ou o foco irradiador das imagens e das metáforas literárias.
Em Proust, compõe-se um espaço cujas imagens só se desdobram aprés-coup, em seus mosaicos não-euclidianos da agonia; um espaço curvo acima de um Eu que vê decorrer a sua própria vida e a vida exterior; um Eu que apreende com extrema acuidade o que está perdido; que põe por escrito a caída de um mundo em declínio: caleidoscópio de grandes damas, belos senhores, aventureiros: les héros du déluge.
Tudo parece real nesse espaço proustiano, e tudo contém os interstícios onde se aninham as metáforas. Destaca Ernst Bloch que são metáforas tiradas de esferas decaídas, sejam estas as mesas dos restaurantes, sejam os planetas como o sol – designado a suntuosa e milenar múmia desembaraçada de todas as suas ataduras -, nas quais a regra da vida social virou liturgia.
Nesse espaço contemporâneo proustiano, a personalidade é desagregada em “inumeráveis Eu” que não sabem coisa alguma uns dos outros, mas cujos mundos se recortam.
Quanto ao comentário de Ernst Bloch sobre o espaço contemporâneo fissurado em Joyce, sobressai de início a imagem surrealista de uma boca sem Eu, em meio à decomposição que atinge a própria língua, desprovida esta de toda a forma pronta e acabada, logo, aberta e confusa.
As palavras estão em disfunções, perderam sua inserção ao serviço do sentido. O que de ordinário fala, o suposto sujeito que faz de narrador, brinca com as palavras em momentos de fatiga, nos silêncios da conversação ou no falar sem dizer dos seres sonhadores e instáveis que povoam a suposta narrativa.
Segundo Ernst Bloch, deve-se apreciar a montage no “Ulysse”, de Joyce, como um work in progress: simultaneamente atelier e criação. Atelier que, porém, não está acima, mas também faz parte da decomposição.
Vale dizer, a língua observa as regras gramaticais, mas não segue em absoluto as regras da lógica do seu tempo. Na montage no “Ulysse” de Joyce a língua tanto se recorta como um copo quebrado em pedaços, tanto se cristaliza como em um caleidoscópio em movimento, ou circunda estreitando a ação no feitio das cintas.
A compreensão que se tem da língua na narrativa de Joyce é de que ela deve ter sua origem na relação primária, sonora e imaginada; que ela deve ter seu sentido na liberação e na captação da vida inconsciente. É isto o que desperta a língua para a vida: as palavras recobrindo seu valor pré-lógico.

Sem dúvida, como já remarcou Georges Lukacs em seus ensaios sobre Thomas Mann, a atitude de Ernst Bloch para com a obra de James Joyce é de apreciação admirada. Tanto é assim que, priorizando em arte o resgate onírico da antiga cultura e da Escolástica medieval, Ernst Bloch minimiza qualquer postura prévia na leitura de Joyce.

Deste ponto de vista, se quisermos compreender o sintoma e o símbolo que se considera como representando a obra joyceana, pouco importa saber se Joyce obteve êxito, se a sua empresa de embrutecimento dos personagens tivera jamais alcançado o enlevo do poema; pouco importa se em maneira geral é Joyce um autor sério ou o mercador de uma não-idéia impensável, nebulosa da rememoração burguesa da terra após a morte da terra, após uma catástrofe cósmica.
Segundo Ernst Bloch, tampouco é importante saber se “Ulysse” confirma ao menos a lógica de um mundo decaído e opaco, mesmo sem projetar no porvir a luz de uma reviravolta transparente.
Com certeza, o estilo de Joyce em “Ulysse” corresponde a um mundo sem controle, e acolhe como fermento a desagregação, que se compõe de início como a desagregação do Eu no monólogo interior, e depois, como a desagregação da coerência burguesa dos objetos.
Aliás, na apreciação crítica segundo Ernst Bloch, deve-se sublinhar a particularidade do monólogo em Joyce, que não mais deixa intacta e reconhecível a pessoa na permanência do Eu.
Quer dizer, nas anteriores composições do monólogo em outros autores a pessoa conservava ainda muitas coerências de superfície perfeitamente conscientes, muitas coberturas morais. Em Joyce pelo contrário: aqui a pessoa deixou de ter inclusive o Eu como testemunha.

Continuação:

Literatura e Política

Leia mais sobre sociologia da literatura teclando nos links abaixo:

As condições de uma sociologia da literatura

A sociologia da literatura nas relações humanas


Utopia negativa e Monólogo

Sobre a Crítica da Cultura

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