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Thomas Mann e o Altermundialismo

January 26, 2010

Certos leitores de Thomas Mann e outros intérpretes da vida intelectual dos anos de 1920 já assinalaram a crítica do ambiente urbano-industrial tornado inóspito como traçado original de A Montanha Mágica. Todavia, nem todos gostariam de reconhecer no Thomas Mann romancista da classe burguesa um precursor ou mais ainda pioneiro da consciência ambientalista, muito menos o protótipo de um ecologista militante.

Certo, não há levantamento de dados mensurando o alcance prejudicial da poluição sobre a população das cidades, nem sugestões de medidas para reduzi-la.

Trata-se de um romance inspirado na crise do individualismo liberal e sobre o mesmo elaborado, onde é ausente a perspectiva militante e até mesmo a crítica social direta, em que pesem os debates ideológicos entre notados personagens marcadamente cerebrais.

Sem embargo, a narrativa tem alcance crítico por retratar no contexto da época o drama dos indivíduos atingidos pela poluição e, por esta razão, debilitados: “A Montanha Mágica” trata da forma de vida de pessoas impossibilitadas em residir na cidade industrial por quererem evitar a degeneração de sua saúde.

Ali é retratada a sociabilidade dos convivas nos círculos sociais de um sanatório montanhês para a recuperação de enfermidades pulmonares, frequentes à época. O romancista elabora com sensibilidade tal circunstância de afastamento em busca do ar leve, rarefeito e puro das montanhas frias (havia muitos sanatórios à época), para, desta forma conveniente, configurar em simetria a distância estética imprescindível à autêntica obra de arte.

Com certeza, tal romance com motivo nos convivas enfermos da poluição, por si só constitui um valor crítico de atualidade ambientalista, mas o fato de que o sanatório esteja em Davos acrescenta um aspecto simbólico pelo qual o romance de Thomas Mann contribui notadamente para a crítica social pelo altermundialismo.

►Com efeito, em acordo com alguns argutos comentaristas pode-se dizer que, em 1970, o criador da proposta de reunir anualmente no monte Davos de Suíça os principais líderes econômicos europeus, a fim de promover a indústria do continente, não imaginava que, ao passar do tempo, Davos se constituiria no símbolo latente da economia global e das inquietações das nações poderosas, tornando-se o Fórum Mundial Econômico.

Cidade em que se desenvolve “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, Davos tornou-se o albergue para os donos do dinheiro, hospital onde estadistas, banqueiros, economistas e outros especialistas analisam as enfermidades que ameaçam o mundo capitalista.

O fórum da “montanha mágica” houve por aglutinar a atenção dos responsáveis do destino do orbe, centrando suas agendas nos temas do desenvolvimento global. Basta ver os assuntos debatidos na última

década: “A Nova direção da liderança (1991)”; “Cooperação e Megacompetição (1992)”; “A recuperação Global (1993)”; “Redefinição dos pontos básicos da Globalização (1994)”; “Globalização da Economia Mundial (1996)”; “O Impacto da Globalização (1999)”; “Internet e a Engenharia Genética (2000); “Como manter o Crescimento e criar pontes que terminem com as divisões: um marco de ação para o futuro global (2001)”; ” Liderança em tempo de fragilidade: uma visão para um futuro comum (2002).

Seja como for, o tema que inquietou mesmo os novos convivas de Davos foi o relatório de que o aquecimento da Terra levaria a economia mundial a encolher-se em 20%. O volumoso “informe Stern” conclui com expressões dramáticas: “Nuestras acciones actuales y de las próximas décadas podrían crear el riesgo de que se produzca una importante perturbación de las actividades económicas y sociales, cuya escala sería comparable a la asociada con las grandes guerras y depresión económica de la primera mitad del siglo XX”.

Mas não é tudo. Na outra face de Davos-fórum da economia se estabeleceu uma passarela onde fascina desfilar, e, além de prescreverem as fórmulas para fortalecer as transnacionais da globalização, os personagens dos altos cargos que ali pagam para circular se acreditam elevados ao esnobismo e à liderança mundial pelo oráculo do dinheiro.

Seja como for, por sua inércia em face da questão ecológica, a Davos mundial da globalização parece revigorar a imagem de que, na montanha de Thomas Mann, se pode adquirir perfeita saúde, mas atravessando a experiência da enfermidade.

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