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NA TRILHA DO HOMO FABER: ARTIGOS SAINT-SIMONIANOS DE SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO REDIGIDOS EM PORTUGUÊS.

February 28, 2008


Neste livro o autor esclarece que a mudança ocorrente no interior das estruturas assimilando a relatividade do histórico e do arcaico passa na origem da técnica e da moralidade autônoma. Em acréscimo, ensina como reconhecer a dialética dos níveis e hierarquias múltiplas próprias aos agrupamentos particulares em sua autonomia relativa no interior e diante das classes sociais e das sociedades globais.

Trata-se de um ensaio de teoria sociológica que examina ponto por ponto o problema da possibilidade da estrutura descrevendo a manifestação concreta da consciência coletiva em formas de sociabilidade (Nós, relações com Outrem). Essa descrição põe em relevo as bases da sociologia do conhecimento tirando proveito das análises de Georges GURVITCH sobre a pluridimensionalidade da realidade social, em vista de corroborar o fato de que não há unificação estrutural sem a intervenção da liberdade humana produzindo as correlações funcionais entre o saber e os quadros sociais.

< NA TRILHA DO HOMO FABER: ARTIGOS SAINT-SIMONIANOS DE SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO REDIGIDOS EM PORTUGUÊS > foi elaborado por Jacob (J.) Lumier sob a mirada do sociólogo como atuante no conjunto dos profissionais das Ciências Humanas.

Categorias: conhecimentos universitários, ciências humanas, comunicação social, teoria sociológica.

Palavras chaves: consciência coletiva, dialética, realidade social, gestalt, atitudes coletivas, microssociologia.

© 2007 by Jacob (J.) Lumier

***

DANS LA VOIE DU HOMO FABER: ARTICLES SAINT-SIMONIENS

DE SOCIOLOGIE DE LA CONNAISSANCE RÉDIGÉS EN PORTUGAIS.

Jacob (J.) Lumier


Description

Dans ce livre l’auteur tien compte de la relativité de l’historique et de l’archaïque. Il soutien que le changement à l’intérieur des structures passe dans l’origine de la technique et de la moralité autonome. Il enseigne comment reconnaître la dialectique des niveaux et hiérarchies multiples propres aux groupements particuliers dans son autonomie relative à l’intérieur et devant les classes sociales et les sociétés globales.

Il s’agit d’un essai sur la théorie sociologique qui examine point aprés point le problème de la possibilité de la structure y décrivant la manifestation concrète de la conscience collective sous les formes de sociabilité (les Nous, les relations avec l’autrui). Dans cette description on met en relief les bases de la sociologie de la connaissance en profitant des analyses de Georges GURVITCH sur la pluridimensionalité de la réalité sociale. Tout ceci en vue de corroborer que ne peut pas y avoir de l’unification structurale sans l’intervention de la liberté humaine produisant les corrélations fonctionnelles du savoir et des cadres sociaux.

DANS LA VOIE DU HOMO FABER: ARTICLES SAINT-SIMONIENS DE SOCIOLOGIE DE LA CONNAISSANCE RÉDIGÉS EN PORTUGAIS c’est un livre qui a été élaboré par Jacob (J.) Lumier sous le régard du sociologue pris dans leur pratique parmi les professionnels des Sciences Humaines.

Catégories : sciences humaines, théorie sociologique, connaissances universitaires, communication.

Les Mots Clés: conscience collective, microsociologie, dialectique, réalité social, gestalt, attitudes colletives.


© 2007 by Jacob (J.) Lumier

***


Titres de la Table des Matiéres

Première Partie:

THÈSES

LAICÏTÉ ET SOCIOLOGIE: REFLEXION SUR L’ HOMO FABER

LA DIALECTIQUE SOCIOLOGIQUE:

Les procedés pour décrire les attitudes collectives.

DIALECTIQUE ET MICROSOCIOLOGIE DE LA CONNAISSANCE:

Les Références Pour une Pratique Sociologique.

Deuxième Partie:

RÉSONANCES

(Quelques Annotations Critiques)

BACHELARD, GURVITCH et SARTRE.

CULTURALISME ABSTRACT et SOCIOLOGIE

ou de Weber a Lefébvre.

ÉPISTÉMOLOGIE et SOCIOLOGIE DE LA CONNAISSANCE.

DAHRENDORF: SOCIOLOGIE ou PHILOSOPHIE SOCIAL?

CASSIRER ou LE ALLÉGORIQUE PAR LE SOCIOLOGIQUE.

BERGER et LUCKMANN ou LA RÉIFICATION TRANQUILLISÉE.

***

APRESENTAÇÃO

Se o mundo como significado foi transposto “a uma distância muito vaga” das vidas das pessoas não se pode deixar aí passar inteiramente despercebido que a autonomia do significado em relação ao significante num contexto de dependência de um grupo, de uma classe ou de uma sociedade global configura a criação de ligações com o próprio significado autônomo levando às relações com os outros grupos; levando a uma interpretação, funcionalidade ou atitude afirmativa de um Nós – não só como consciência dos obstáculos, mas como apreensão dos determinismos sociais: o cidadão normal vê sua profissão como se fosse uma ruela de uma imensa engrenagem.

O estudioso que leva a sério suas leituras de História e exerce a reflexão sobre a modernidade intrigado por essa cultura que não pertence a coletividade alguma já terá anotado que, nos ensaios sobre mudança social, curiosamente, resta intocado o problema da objetivação dessa cultura em estado genérico que nas sociedades industriais não se individualiza, limitada pelo pensamento crítico ao estatuto de uma referência em que as estruturas sociais são tomadas desde o ponto de vista do sistema, como sujeitas à mudança somente nas posições relativas de grupos e classes. Nessa abordagem sistemática, uma vez que o pensamento crítico não percebe a mudança no interior das estruturas, o problema da possibilidade mesma da estrutura é deixado inatendido, restando na sombra. Em conseqüência a referência das formas de sociabilidade fica embargada por enunciados conceitualistas transpondo a pesquisa propriamente sociológica dos níveis intermediários da realidade social para o plano futuro das desejáveis relações individuais com a natureza e a sociedade, o plano da perquirida “concretização da cultura”. Por outras palavras, no pensamento crítico a referência das formas de sociabilidade fica embargada na própria objetivação da cultura porquanto constituída como produto cultural de um gênero especial capaz de impor mais do que um hiatus um abismo entre os homens e os significados.

Mas não é tudo. Se o mundo como significado foi transposto “a uma distância muito vaga” das vidas das pessoas não se pode deixar aí passar inteiramente despercebido que a autonomia do significado em relação ao significante, como fato social – isto é, num contexto de dependência de um grupo, de uma classe ou de uma sociedade global – configura a criação de relações com o próprio significado autônomo levando às relações com os outros grupos; levando a uma interpretação, funcionalidade ou atitude afirmativa de um Nós – não só como consciência dos obstáculos, mas como apreensão dos determinismos sociais. No dizer de Georges LUKACS “… o cidadão normal vê sua profissão como se fosse uma ruela de uma imensa engrenagem[i] . Quer dizer, se o mundo como significado foi transposto “a uma distância muito vaga” das vidas das pessoas ocorre em realidade apenas uma falsa aparência, já que a criação coletiva se afirma no reconhecimento dessa autonomia do significado como tomada de consciência dos determinismos sociais, malgrado o mal estar que a falta de significado no trabalho pudera impressionar.

Certamente que nesses determinismos sociais, nessas engrenagens, não excluímos aqui os traços do capitalismo organizado e dirigista, tais como a sujeição dos homens e dos grupos às máquinas, a destruição de estruturas sociais e obras de civilização por efeito de técnicas cada vez mais independentes, a negação dos direitos dos cidadãos de todas as categorias (produtores e consumidores) de governarem-se a si mesmos e de controlar todo poder que se os imponha. Tanto mais que a era da automatização e das máquinas eletrônicas dá primazia lógica ao conhecimento técnico em um grau tal que, como sublinha Georges GURVITCH, “todas as outras manifestações do saber são influídas ao ponto de tecnificar-se tanto quanto possível [ii] ”. As próprias ciências humanas são comprometidas gravemente com as gigantescas organizações de sondagens da opinião pública, de estudos de mercado, etc. as quais apenas se limitam à mecanização e à tecnificação das “relações humanas” e dos problemas reais que suscitam a vida mental e a vida social atuais, com o objetivo de subordiná-los aos esquemas prefixados, muito ao gosto dos defensores da” lógica simbólica”, que tecnificam a filosofia [iii]. Neste contexto, sendo preciso ultrapassar a abordagem sistemática para reencontrar através da autonomia do significado a atitude afirmativa de um Nós, a sociologia do conhecimento com sua abordagem diferencial surge como alternativa capacitada para nos ensinar a revalorizar as formas ou manifestações de sociabilidade. Os Nós (como manifestações concretas da consciência coletiva incluindo as relações com outrem e viabilizando a participação nos agrupamentos sociais particulares), as classes sociais, as sociedades globais e suas estruturas são temas coletivos reais, de tal forma que podemos falar do conhecimento dos outros, do conhecimento dos Nós, dos grupos, das classes e das sociedades globais como se fala de uma classe específica de conhecimento na realidade social, sem dúvida um conhecimento muito colado aos papéis sociais e às expectativas de papéis. Mas isso já é avançar muito sobre o conteúdo desta obra.

Importa assinalar nesta Apresentação como já o fizemos em nossos ensaios anteriores já publicados que, nesta obra aqui, prosseguimos em nosso esforço para estabelecer a proposição de que a sociologia do conhecimento pode nos ensinar a revalorizar a sociabilidade humana. Proposição essa tanto mais importante quanto autores do alto porte filosófico de um Karl POPPER, atribuindo-lhe equivocadamente um estatuto de disciplina exclusivamente causal, nos dizem que nada ou muito pouco a sociologia do conhecimento teria para ensinar. Nas suas palavras: “podemos aprender acerca da heurística e da metodologia e até a respeito da psicologia da pesquisa, estudando teorias apresentadas pró e contra elas, mais do que por qualquer abordagem direta behaviorista ou psicológica ou sociológica” [iv]. Quer dizer que, além da pouca sensibilidade metodológica como obstáculo à sociologia do conhecimento, agora encontramos também uma atitude nitidamente depreciativa da relevância pedagógica da sociologia do conhecimento como disciplina científica. Atitude essa que, entretanto, não fica restrita às afirmações dos filósofos e epistemólogos, mas que tem seguidores entre os sociólogos, tanto que Anthony GIDDENS depreciará o histórico da pesquisa especificamente sociológica do coeficiente existencial do conhecimento dizendo-nos que considera como “erro clássico” da sociologia do conhecimento – gratuitamente qualificada “velha”, sem explicar esta qualificação – a sugestão de que a “validade das teorias científicas pode ser reduzida aos interesses que desempenharam um papel na sua geração“, embora esse prolixo autor admita que “esse ponto necessita de uma ênfase[v] .

Desta forma, para prosseguirmos em nosso esforço de estabelecer a proposição de que a sociologia do conhecimento pode nos ensinar a revalorizar a sociabilidade humana, reafirmamos aqui a convicção de que o caminho do ensino permanece um caminho de pensamento sempre efetivo porquanto alimentado pela “polêmica da prova”. “O espírito científico não repousa sobre crenças, sobre elementos estáticos, sobre axiomas não discutidos“. Segundo Gaston BACHELARD a crença no determinismo não está na base de todos os pensamentos, fora de toda discussão. Pelo contrário, “o determinismo é precisamente o objeto de uma discussão“, “o assunto de uma polêmica quase diária na atividade do laboratório[vi]. Fora dessa polêmica alcançando “uma ligeira ignorância, uma ligeira flutuação na predição”, só restará o argumento mais psicológico, mais dogmático, em predizer o que o fenômeno esperado não será. Portanto, o ensino traz uma luz indispensável à constituição de um espírito científico, não podendo passar despercebida a objeção contra a relevância pedagógica da sociologia do conhecimento, tida equivocadamente por disciplina exclusivamente causal.

© 2007 Jacob (J.) Lumier


[i] Cf. LUKACS, Georges: ‘Marx y Weber : reflexiones sobre la decadencia de la ideología’, in HOROWITZ, Irwin L.: ‘Historia y Elemientos de la sociología del conocimiento-tomo I ’ , artigo extraido de LUKACS, G. : ‘Karl Marx und Friedrich Engels als Literaturhistoriker’, Berlim, Aufbau, 1948; tradução Carlos Guerrero, Buenos Aires, Eudeba-editora da universidade de Buenos Aires, 3ªedição, 1974, pp.49 a 55 (ver pág. 53)..

[ii] Cf. GURVITCH, Georges: “Los Marcos Sociales del Conocimiento”, trad. Mário Giacchino, Caracas, Monte Avila, 1969, 289 pp (1ªedição em Francês: Paris, PUF, 1966). Ver págs.230 sq.

[iii] Depois da tecnificação avançada da filosofia, introduzida pelo “Tractadus Logico-Philosophicus”, de Wittgenstein, o leitor de filosofia viu-se obrigado a saber manejar uma combinatória prévia com mais de trinta símbolos de uma “sintaxe lógica”, só para acessar as proposições e começar sua leitura. Sem o conhecimento antecipado dessa técnica especialíssima de enunciação, torna-se impossível ao leitor entrar em contato com a filosofia e com a investigação do objeto oculto de que se ocupa toda a ciência. Para GURVITCH, esta tendência para a tecnificação da filosofia deve ser situada no quadro da tecnocracia, e ele se opõe com firmeza à tecnocratização, não só dos conhecimentos e dos controles sociais, mas das relações humanas. Podemos ver que, com este posicionamento, nosso autor faz par com o existencialismo de diferentes tendências, já que, no seu dizer, o existencialismo constituiu uma tentativa de resistência, em nome do Eu, do Outro, das coletividades concretas, à tecnificação da filosofia. A oposição de GURVITCH à tecnocratização pode ser notada com clareza em sua análise crítica contundente da doutrina dos “Managers”, de BURNHAM (cf. “A Vocação Atual da Sociologia”-vol.II, pp.489 a 523; Los Marcos Sociales del Conocimiento”, p.228 e p.233, op.cit.).

SUMÁRIO

Apresentação… Pág. 15

Prefácio… Pág. 21

Primeira Parte:

TESES

LAICIDADE E SOCIOLOGIA:

Reflexão Sobre o Homo Faber… Pág. 27

A DIALÉTICA SOCIOLÓGICA:

Os procedimentos para descrever as atitudes coletivas… Pág. 51

DIALÉTICA E MICROSSOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO:

Referências Para Uma Atuação Sociológica… Pág. 69

***

Segunda Parte:

RESSONÂNCIAS

(Apontamentos críticos)

BACHELARD, GURVITCH E SARTRE… Pág. 113

CULTURALISMO ABSTRATO E SOCIOLOGIA… Pág. 127

(ou de Weber a Lefébvre).

EPISTEMOLOGIA E SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO… Pág.135

DAHRENDORF: SOCIOLOGIA OU FILOSOFIA SOCIAL?… Pág. 153

CASSIRER OU O ALEGÓRICO PELO SOCIOLÓGICO… Pág. 159

BERGER E LUCKMANN: A REIFICAÇÃO DESASSOMBRADA… Pág. 165

***

Mensagem sobre o autor… Pág. 169

Bibliografia Consultada e Comentada… Pág. 173

PREFÁCIO

Em face das chamadas “ciências cognitivas” que examinam o conhecimento sem tomar em consideração a consciência em seu conjunto, é indubitável que a sociologia do conhecimento dispõe de melhores recursos operativos a partir da percepção de que a realidade social do conjunto comporta uma pluralidade de modos atualizados. Aliás, é uma aquisição da teoria sociológica na tradição de seu fundador Saint-Simon e do jovem Marx valorizada por Georges GURVITCH a verificação de que a realidade é em ato. Quer dizer, a consciência faz parte das forças produtivas em sentido lato e desempenha um papel constitutivo nos próprios quadros sociais, – seja como linguagem, seja pela intervenção do conhecimento, seja ainda como direito espontâneo – tirando-se daí que a construção do objeto na teoria sociológica se faz a partir dos quadros sociais como sendo os modos de ação comum atualizados nas manifestações de sociabilidade (os Nós, as relações com outrem), atualizados nos agrupamentos particulares, nas classes sociais e nas sociedades globais, sendo que os quadros sociais exercem um domínio, um envolvimento sobre a produção material e espiritual que se manifesta em seu seio, o que se prova mediante as correlações funcionais. Dessa forma, os quadros sociais e a consciência real (a religião, a família, o Estado, o Direito, a moral, a ciência, o espírito) revelam-se em procedimentos dialéticos também como produtos das forças produtivas strictu sensus, e por isso podem permanecer objetivados dando lugar, por sua vez, à dialética dos níveis de realidade social. É claro que na construção de tipologias a teoria sociológica tira dessa dialética complexa dos níveis da realidade social ela própria os procedimentos por complementaridade, compensação, implicação mútua, ambigüidade, ambivalência, reciprocidade de perspectiva e até polarização.

Porém o estudo da estruturação para esclarecer o problema da possibilidade da estrutura implica igualmente a compreensão de que as manifestações de sociabilidade como fenômenos microssociológicos são elementos anestruturais, portanto incapazes por si próprios de formar hierarquias dos patamares de realidade. Ou seja, as formas de sociabilidade embora não unifiquem atualizam no seu seio os degraus objetivados da realidade aos quais Georges GURVITCH chamará “níveis múltiplos”, constatando que entre esses níveis se trata de relações inteiramente variáveis alternando e combinando por um lado graus de cristalização e por outro lado graus de espontaneidade, constituindo assim forças dinâmicas de mudança. Portanto, as hierarquias em que esses níveis múltiplos tomam parte são também hierarquias múltiplas que variam em cada sociedade e em tal ou qual tipo de estrutura – seja estrutura parcial ou global – e nas quais a descontinuidade prevalece. O conceito de estrutura social em sociologia diferencial põe em relevo o fato de o conjunto social por mais complexo que seja preceder, virtualmente ou atualmente, todos os equilíbrios, hierarquias, escalas. O estudo desses níveis múltiplos e dessas hierarquias múltiplas permite avançar na explicação sociológica do que GURVITCH chama ”pluridimensionalidade da realidade social“, suas “ordens sobrepostas”, e, se as camadas seccionadas podem se afirmar como sendo mais cristalizadas e oferecer um suporte mais sólido à estruturação do que jamais poderão fazê-lo as manifestações de sociabilidade, cabe sublinhar que tais camadas seccionadas nada representam, e não passam de aspectos difusos da matéria social dinâmica, independentes do grau de valor e de realidade, somente limitadas aos graus de dificuldade para acessá-las. Dessa maneira, a teoria sociológica constrói seu objeto na medida em que delimita a realidade social em níveis mais ou menos construídos para estabelecer “conceitos” ou quadros operativos eficazes em vista de dar contas da pluridimensionalidade da realidade social.

Seja como for é preciso evitar a postura dogmática que se monta em torno do desconhecimento dos problemas da microssociologia, evitando notadamente o desprezo pelo estudo dos Nós como expressão concreta da consciência coletiva, isto é, como focos das interpenetrações das consciências e das condutas, de suas fusões parciais constituindo os fenômenos de participação direta dos indivíduos nas totalidades espontâneas. Segundo GURVITCH, em sociologia os Nós são precisamente compreendidos em um movimento dialético real pela simples razão de que: “se interpenetrar ou fusionar parcialmente não quer dizer em absoluto se identificar, mas quer dizer se afirmar de uma só vez irredutíveis e participantes, unidos e múltiplos”.

Sabemos que DURKHEIM e seus colaboradores já na primeira metade do século XX tomaram em consideração a existência de memórias coletivas múltiplas acentuando que as consciências individuais se revelam penetradas pelas memórias coletivas (Maurice HALBWACHS). DURKHEIM ele próprio em debate com Gabriel TARDE ao insistir que não se pode desconhecer a descontinuidade e a contingência que diferenciam as esferas do real se posiciona sobre a referência das funções cerebrais na vida da consciência, como que antecipando a preocupação das chamadas “ciências cognitivas”. Assim em seu estudo sobre “Les Représentations Collectives et les Représentations Individuelles”, estudo posteriormente inserido na sua obra “Philosophie et Sociologie”, pressentindo a dialética ao argumentar por analogia sobre a autonomia relativa nas relações entre a consciência coletiva e a consciência individual, DURKHEIM deixa claro sua recusa em reabsorver a consciência coletiva nas consciências individuais nos dizendo que isto equivaleria a reabsorver o pensamento na célula e retirar à vida mental toda a especificidade. Certamente já se sabe hoje em dia que a descontinuidade diferenciando a consciência individual das células do cérebro não é idêntica àquela que diferencia a consciência coletiva da consciência individual. Segundo GURVITCH, e apesar de suas variadas implicações, o psíquico e o biológico ou orgânico pertencem a esferas do real mais ou menos disjuntas, admitindo sobreposição; pelo contrário, a consciência coletiva e a consciência individual são manifestações da mesma realidade estudada como fenômeno psíquico total.

Seja como for, o fato de que a técnica influi em todos os ramos do saber não justifica está claro o abandono da consciência no estudo do conhecimento como elemento de civilização, nem dá respaldo para que o conhecimento deva ser reduzido às funções cerebrais e tratado como mero fruto das linguagens lógicas e matemáticas. Por mais intuitiva que seja a inteligência artificial no sentido amplo deste termo, não se vê de que modo poderá ela substituir a experiência humana como essencial para o conhecimento e no conhecimento. Os juízos cognitivos pressupõem a apreensão das amplitudes concretas da sociabilidade, inexistentes no ciberespaço. Portanto, em razão desta constatação é de bom senso que, diante da influência das chamadas “ciências cognitivas”, os praticantes da mirada e da intervenção sociológica, sejam eles estudantes, animadores de atividades sociais e profissionais das Ciências Humanas tenham presente a conclusão de DURKHEIM em face daqueles que, como Gabriel TARDE, houveram desejado dissolver o psiquismo coletivo no psiquismo individual ou interpessoal, já que seriam eles “… materialistas e monistas sem que o soubessem: ignoram a descontinuidade e a contingência que diferenciam as esferas do real e as reduzem a uma só ”.

Nesta obra acentuamos a importância da dialética complexa para a orientação diferencial da sociologia do conhecimento, sobretudo visando instruir em molde propedêutico a atuação dos que, profissionais ou voluntários, na mídia ou não, em suas atividades sociais regulares se relacionam ao aspecto instituinte da vida social como as “condutas efervescentes” próprias aos diálogos, debates, reuniões, assembléias, etc. Como é sabido, uma vez que a sociologia faz entrever os conflitos reais entre os aparelhos organizados, as estruturas propriamente ditas e, enfim, a vida espontânea dos grupos não se pode preservar o conceito de instituição como práxis e coisa e desconhecer a dialética dos atos e das obras, “das maneiras de ser e dos jeitos de se ver” (“controles sociais”), em que o conceito de estrutura se revela o mais dialético: os atos individuais ou coletivos não se deixam reduzir à objetivação nas obras de civilização.

©2007/2008 Jacob (J.) Lumier

[iv] Cf. POPPER, Karl: ‘Conhecimento Objetivo: uma abordagem evolucionária’, tradução Milton Amado, São Paulo/Belo Horizonte, EDUSP/editora Itatiaia, 1975, 394 pp., ver pág. 116. Versão traduzida da edição inglesa corrigida de 1973 (1ªedição em Inglês: Londres, Oxford University Press, 1972).

[v] Cf. GIDDENS, Anthony: “As Novas Regras do Método Sociológico : uma crítica positiva das sociologias compreensivas”, trad. Ma. José Lindoso, revisão Eurico Figueiredo, Rio de Janeiro, Zahar, 1978, 181 pp. (1ªedição em Inglês, Londres, 1976). Ver pág.151.

[vi] Cf. BACHELARD, Gaston: “O Novo Espírito Científico”, São Paulo, ed.Abril, 1974, coleção “Os Pensadores”, vol.XXXVIII, pp.247 a 338 (1ªedição em Francês, 1935). Ver págs. 302, 303.

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