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A UTOPIA NEGATIVA NA SOCIOLOGIA DA LITERATURA: ARTIGOS EM TORNO DE MARCEL PROUST REDIGIDOS EM PORTUGUÊS.

February 28, 2008

Título: A UTOPIA NEGATIVA NA SOCIOLOGIA DA LITERATURA: ARTIGOS EM
TORNO DE MARCEL PROUST REDIGIDOS EM PORTUGUÊS.
Por
Jacob (J.) Lumier
Descrição.

Neste livro o autor Jacob (J.) Lumier esclarece sobre a utopia negativa
como objeto da sociologia da literatura. Agarrado ao ponto de vista da
individuation, ensina aos universitários como apreciar a arte literária de Proust sob
o aspecto da mediatização e no quadro da crise de objetividade literária,
lembrando que a supressão do objeto do romance em face do gênero reportagem
no século XX implica e altera a posição do narrador que, por diferença do
realismo literário do século XIX, não mais possui a experiência do conteúdo a ser
narrado – situação essa classificada como crise da possibilidade de narrar algo
especial e particular.

Trata-se de uma coletânea de textos e artigos expondo leituras de
Sociologia da Literatura em que se examinam as linhas básicas da evolução
histórica e da situação do romance moderno em sua ambiguidade como técnica
de comunicação, descrevendo-se as variações composicionais mais significativas a
respeito da posição do narrador, do elemento personagem e da relação com o leitor.

Nessa descrição se aprofunda na crítica da cultura, sobretudo em vista de
situar a arte de Proust como ponto de referência para a desmontagem da
ideologia do futurismo.

L’utopie Négative Dans La Sociologie De La
Littérature: Articles Au Tour De Marcel Proust
Redigés En Portugais foi elaborado por Jacob (J.) Lumier sob a mirada
do sociólogo em vista de produzir bibliografia básica para a formação nas
Ciências Humanas e dar aproveitamento e atualidade às fontes históricas
revalorizando a arte de Proust.
Categorias: Comunicação social, ciências humanas, sociologia, história, teoria
literária, avant-garde.
Palavras chaves:
Romance, fantasia, mundo dos valores, conhecimento, realidade, alienação,
reificação, coisificação, indivíduo, individualismo, crítica, cultura, psicologia,
consciência, sociedade, artista, mediação, subjetividade, consciência,
mediatização..
© 2007 by Jacob (J.) Lumier
***

Titres de la Table des Matiéres
PRÉSENTATION
SOCIOLOGIE, LITTÉRATURE ET FANTASIE:
Le probléme des relations avec la sociologie de la connaissance.
INDIVIDUALISME ET RÉIFICATION:
Sur l’éthique de l’écrivain, l’ironie et le probléme esthétique du genre romanesque.
STRUCTURES ÉCONOMIQUES ET GENRE ROMANESQUE.
CRITIQUE DE LA CULTURE ET SURREALISME:
Par delá la Psicanalise.
CRISE DU ROMAN ET INDIVIDUALISME:
La standardization en tant que facteur du Montage chez T.W. Adorno.
DOSTOYEVSKI, PROUST, KAFKA ET LA CRISE DU ROMAN DANS LE
CONTEXT DE L’INDUSTRIE CULTURELLE:
Quelques lignes au tour du Monologue Interieur.
FUTURISME ET UTOPIE NÉGATIVE DANS LA CRITIQUE DE LA
CULTURE:
Élaboration iniciale pour lire um texte d’Adorno.
SOCIOLOGIE ET LITTÉRATURE D’ AVANT-GARDE:
Le Théme de l’Absence et la présence de Proust.
REMISSIVE INDEX
Message sur l’Auteur

***

Apresentação
Neste e-book encontram-se reunidos textos e artigos
expondo as minhas leituras críticas de Sociologia da Literatura. Críticas mas não
contestatórias dos produtos da indústria cultural que muitas vezes são lançados
como se tivessem a aparência de literatura.

O leitor benevolente verá nesta
coletânea que passamos à margem dessas estórias extravagantes em que os
extraordinários efeitos visuais dos filmes nos são oferecidas em volumes que
parecem livros onde seria de esperar o conteúdo literário.

Tampouco nos
detivemos no catastrofismo saboreado pelos best-sellers das grandes editoras. É
claro que o consumismo dos chamados gêneros fantásticos e dos romancesreportagens
sensacionalistas também é pesquisado em sociologia e serve ao
desenvolvimento da economia. Sabemos disso e não preconizamos uma
sociologia da literatura elitista ao dar aproveitamento e atualidade às fontes
históricas revalorizando a arte de Proust.

Pelo contrário. A utopia negativa como horizonte crítico da cultura descobre a referência básica da sociologia literária na pesquisa sobre a ambigüidade do romance como técnica de comunicação: exige verificar a situação do romance em face da realidade no momento antirrealista do romance.

Neste quadro se compreende a arte de Proust como
passando pela Utopia Negativa. É preciso pois ter em vista o monólogo interior
como conhecimentos do homem experiente ou experimentado, suas recordações,
e o valor humano exemplar das lembranças prousteanas que escapam ao sistema e
são mais do que impressões subjetivas.

Dessa forma podemos dizer que a arte de
Proust serve de contraponto para aprofundar o universo da utopia negativa,
sobretudo serve de referência ou ponto de vista na desmontagem da ideologia do
futurismo, originalmente segregada no bem conhecido romance de Aldous
Huxley “The Brave New World”, ideologia essa já integrada na cultura de massa e
bem propagada na mídia pelo filme, por DVD, etc.

Com efeito, desde o ponto de vista da arte de Proust se
afirma a recordação pelo monólogo interior. Personificada em sua realidade
humana pelo narrador prousteano ou mesmo para-além dele, a arte de Proust
atualiza o dilettantismo: o modo de ser do homme de lettres como sujeito social de
conhecimentos, o homem no exercício experimental de suas recordações, por esta
via vinculado ao Iluminismo e à liberdade de pensamento.

É o ponto de vista da
recordação que além de experiência não-generalizável se exerce por um proceder
experimental, por intenção tenteadora, a saber: a recordação na medida em que se
experimenta como esperança ou desilusão fornece o critério que confirma ou refuta para si mesmo as observações do sujeito como indivíduo humano. Tal o caráter do monólogo interior na arte de Proust, caráter artístico criado pelo narrador prousteano como homem experimentado.

Aliás, em favor desse entendimento é bom lembrar que a
supressão do objeto do romance em face da reportagem no século XX implica e
altera a posição do narrador que, por diferença do realismo literário do século
XIX, não mais possui a experiência do conteúdo a ser narrado – situação essa
classificada como crise da objetividade literária ou crise da possibilidade de narrar
algo especial e particular.

Dessa orientação específica são tiradas as principais linhas
das “leituras” de sociologia da literatura reunidas neste e-book, seguintes:
►A situação do narrador que não mais possui a experiência do conteúdo a ser
narrado (crise de objetividade) estivera em correspondência com uma situação já
antecipada por Dostoyevski, a saber: o avanço de Dostoyevski está em ter
assimilado o sentimento de que o romance estava obrigado a romper com o
positivo e apreensível e a assumir a representação da essência como das
qualidades humanas. Se há psicologia na obra de Dostoyevski trata-se de uma
psicologia de caráter inteligível, uma psicologia da essência.

►A supressão do objeto do romance por efeito cultural da preeminência da
informação e da ciência leva à seguinte situação do romance do século XX: para
permanecer fiel à sua herança realista e continuar dizendo como são realmente as
coisas, o romance tem que se afastar de um realismo voltado para reproduzir
apenas a fachada e tem que promover o equívoco desta. Tarefa por sinal não
estranha ao romance que desde o século XVIII com o Tom Jones, de Fielding, já
encontrara seu verdadeiro objeto no conflito entre os homens vivos e as
petrificadas (ou mumificadas) relações, de tal sorte que a própria alienação se
converte assim para o romance em meio artístico.

►Novamente reencontramos Proust. O procedimento narrativo do monólogo
interior desenvolvido em sua obra literária e romanesca estaria conforme a
exigência de suspensão da ordem objetiva espacio-temporal (onde predomina a
coisificação), suspensão essa como já o assinalamos em artigo anterior que
unicamente permite ao narrador fundar um espaço interior.

Será exatamente pela
arte do monólogo interior que o mundo vai sendo arrastado ao espaço interior
assim fundado e todo o externo se apresenta como um fragmento de
interioridade: momento da corrente da consciência resguardado em face da
refutação pela ordem do mundo alheio. Tal é a “técnica micrológica” que T.W.
Adorno interpreta ao observar que todo o primeiro livro de Proust -Combray – não
é mais do que o desenvolvimento das dificuldades que tem uma criança para
dormir quando a mãe bonita não lhe deu o beijo de boa noite.

►Desta forma, T.W. Adorno descobre em Proust o exemplo de uma maneira de
proceder artístico para o autor literário evitar a pretensão de que sabe exatamente
“como foi”, a “pretensão de conhecimento”, o gesto e o tom do “foi assim”, que o
romance deve excluir. Nessa constatação T.W. Adorno percebe o elemento da
fantasia – “o quimérico” – na arte de Proust, no seu proceder micrológico, a saber:
as significações da unidade do vivo fracionada em átomos, que em sociologia crítica da cultura chamar-se-á “o esforço do sensório estético”.

►Na abordagem crítica da cultura a ação dramática do romance está envolvida
em uma técnica da ilusão que reserva previamente ao leitor o papel limitado de
realizar algo já realizado e participar assim do caráter ilusório do conteúdo
representado – ainda que esse caráter ilusório vá sendo suprimido na história
literária conforme se passe de Flaubert para Proust, Gide, Thomas Mann ou
Musil e desemboque no que T.W. Adorno chama “reabsorção da distância estética”.

Não que, por sua vez, a análise crítica da cultura seja desprovida de interesse
específico para a sociologia literária. Sua orientação como vimos é verificar a
situação do romance em face da realidade no momento antirrealista do romance.
Nada obstante, desse modo vem a ser favorecida a prevalência da relação com o
leitor por fora e em detrimento da união autor-personagem-leitor, porquanto a
asserção de que a alienação se converte em meio artístico, para um tipo de
romance cujo impulso é decifrar o enigma da vida externa, exige pôr em relevo
além da fantasia a ambigüidade do romance como técnica de comunicação.

►Será por via do quimérico, da fantasia, que podemos passar da sociologia crítica
da cultura à crítica personalista, de T.W. Adorno à Nathalie Sarraute. Ou seja, a
presença de Proust é justamente tomada como igualmente decisiva para enfrentar
a chamada crise do romance psicológico.

Para Nathalie Sarraute, célebre romancista e
refinada ensaísta crítica do romance, em modo diferente da sociologia crítica da
cultura, o objeto do romance é antes de tudo o objeto literário: é a fantasia posta
em questão na análise da crise do romance psicológico de tal sorte que a reflexão
estética reporta-se sobre a união em ato entre o autor, o personagem e o leitor. O
problema do caráter inteligível e das qualidades humanas deve ser investigado a
partir das próprias descrições oferecidas pelos romancistas nas manifestações dos
seus personagens. Dessa maneira, antes de voltar-se ao exame da representação da
essência obscurecida pela consciência alienada, dá-se prioridade à experiência do
fato literário como tal.

►Em relação à representação da essência em meio à alienação como meio
artístico, podemos ver em nossa autora que os personagens de Dostoyevski dão
uma impressão irreal porque já têm tendência a tornarem-se o que os personagens
de romance serão cada vez mais, isto é, não tanto tipos humanos como aqueles
que a gente acredita perceber em torno do ambiente e cujo desmembramento
“parecia ser o objetivo principal do romancista”, mas, sim, somente “simples
suportes”, os portadores de estados da subjetividade que as pessoas podem
reencontrar nelas mesmas ainda que sejam estados ou “movimentos” ainda
inexplorados.

Será com referência a este traçado do elemento “personagem”
como simples suporte que Nathalie Sarraute aventa a hipótese de que o
esnobismo mundano de Proust “a repercutir-se com um caráter de obsessão
quase maníaca em todos os seus personagens” não seja outra coisa senão uma
variedade dessa mesma carência obsessiva de fusão verificada em Dostoyevski, só
que cultivada em um solo artístico diferente, formalista e dos começos do século
XX.

Na pior alternativa, nossa autora considera como adquirido que a obra de
Proust vista com a distância entre o leitor dos anos de 1960 e os começos do
século XX, mostra como aqueles estados complexos e sutis já verificados na
composição da fantasia em Dostoyevski foram captados por Proust em sua
procura ansiosa através de todos os seus personagens. Mais ainda: aqueles estados
da subjetividade são o que subsiste na obra proustiana de mais precioso e mais
sólido, são o que se preserva mesmo se os invólucros pelos tipos humanos de
Swann, Odete, Orianne de Guermantes ou os Verdurin tenham se tornado com a
distância do contexto um pouco espessos demais.

►Trata-se de saber como deve ser vista a trajetória da figuração do elemento
“personagem” no romance moderno como levando ao deslocamento de seu
centro de gravidade, com o personagem deixando de figurar tipos humanos e se
tornando essencialmente o simples suporte ou portador dos estados de alma sutis
e complexos que incluímos sob a noção sociológica de fantasia.

Ou seja, a trajetória do “personagem” está em correspondência com a via que
exprime os estados de alma coletivos, que exprime o sentimento coletivo. Tais estados complexos e sutis não somente estão ancorados num fundo comum, mas tendem
sem cessar através dos invólucros que os separam, a se reagrupar e a se misturar
na massa comum. Tais estados complexos “passam de um personagem ao outro,
se reencontram em todos, são refratados em cada um segundo um índice
diferente e nos apresentam cada vez uma de suas inumeráveis nuances ainda
desconhecidas”.

► Em relação à ambigüidade do romance como técnica de comunicação no
ambiente da alienação como meio artístico, se comparados, observaríamos que a
procura dos personagens de Dostoyevski os conduz, “no seio do mais fraternal
mundo que seja”, a buscar, como já o dissemos, “uma espécie da sempre possível
interpenetração ou fusão total, enquanto que os esforços dos heróis de Kafka são
orientados para um objetivo mais modesto e mais longínquo.

Ou seja, oferecendo-nos as palavras do próprio narrador kafkiano, nossa ensaísta nos diz que para os personagens de Kafka, “aos olhos dessa gente que os mira com tanta
desconfiança”, trata-se de se tornar somente nem tanto seus amigos, mas enfim
seus concidadãos; ou, sob outro aspecto, malgrado todos os obstáculos, trata-se
de empenhar-se em preservar com aqueles mesmos que lhes são mais próximos
algumas tênues semelhanças de relações.

Para Sarraute, as interpretações metafísicas de Kafka são devidas às características desta acanhada busca, sua desesperada obstinação, a profundidade do sofrimento humano, a indigência e o abandono total que nessa acanhada busca se revelam e que transbordam o plano psicológico.

Nada obstante, nossa autora repele que se possa identificar os heróis
de Kafka “à imagem da realidade humana como despojada de todas as
convenções psicológicas”.

Vale dizer, esta perspectiva personalista reencontra a
ambigüidade do romance como técnica de comunicação constatando que, não
obstante a consciência alienada, a auto-alienação na utopia negativa, nem os
personagens de Kafka podem ser vistos como se houvessem sido esvaziados de
todo o pensamento e de toda a vida mental subjetiva.

Articles au tour de Marcel Proust redigés en Portugais. © 2007 Jacob (J.) Lumier.
Websitio Produção Leituras do Século XX – PLSV
http://www.leiturasjlumierautor.pro.br
FIM

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