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PSICOLOGIA E FANTASIA NA SOCIOLOGIA DA LITERATURA

February 26, 2008

PSICOLOGIA E FANTASIA NA SOCIOLOGIA DA LITERATURA:
Notas sobre a leitura crítica do romance de Camus como fonte de estudo da diferença entre o real e a descrição imaginária.

Por
Jacob (J.) Lumier


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This work is licensed under a
Creative Commons Attribution-Noncommercial-No Derivative Works 2.5 Brazil License.

Este artigo visa contribuir com o estudo das relações humanas em relação à compreensão de que o problema da falta de motivação e a indiferença têm componentes críticos que relevam da condição do homem na civilização da maquinaria.

Epígrafe:
Não há obra de arte moderna que tenha valor sem que ao mesmo
tempo encarne o espanto, a perplexidade sendo desta forma, por
prestarem testemunho do que experimentou o indivíduo da era
liberal, que tais obras servem à liberdade. (T.W. Adorno)

Dentre os estudiosos da sociologia e filosofia literária não é somente T.W. Adorno quem inclui o problema do monólogo interior no âmbito de uma reflexão sobre a crise da objetividade proposta nos anos de 1950. Mas, já nos anos quarenta a presença de Proust é tomada como igualmente decisiva para enfrentar a chamada crise do romance psicológico por Nathalie Sarraute (SARRAUTE, Nathalie: “L’Ére du Supçon”, Paris, Gallimard, 1956; publicado originalmente in “Les Temps Modernes”, Outubro, 1947).

Para essa autora-referência do noveau roman, em modo diferente da sociologia crítica da cultura, o objeto do romance é antes de tudo o objeto literário: é a fantasia posta em questão na análise da crise do romance psicológico de tal sorte que a reflexão estética reporta-se sobre a união em ato entre o autor, o personagem e o leitor. O problema do caráter inteligível e das qualidades humanas deve ser investigado a partir das próprias descrições oferecidas pelos romancistas nas manifestações dos seus personagens. Dessa maneira, antes de voltar-se ao exame da representação da essência obscurecida pela consciência alienada, dá-se prioridade à experiência do fato literário como tal.

Não que o aspecto crítico da cultura seja desatendido nas análises de Nathalie Sarraute, mas que a sua apreciação do romance trata a experiência da leitura na perspectiva do fato literário com independência em face do envolvimento prévio nas significações culturais. A ação dramática não será tomada pois necessariamente em comparação com o que T.W. Adorno designa “cena da câmara escura do teatro burguês”.

Na abordagem crítica da cultura a ação dramática do romance está envolvida em uma técnica da ilusão que reserva previamente ao leitor o papel limitado de realizar algo já realizado e participar assim do caráter ilusório do conteúdo representado – ainda que esse caráter ilusório vá sendo suprimido na história literária conforme se passe de Flaubert para Proust, Gide, Thomas Mann ou Musil e desemboque no que T.W. Adorno chama “reabsorção da distância estética”.

Não que, por sua vez, a análise crítica da cultura seja desprovida de interesse específico para a sociologia literária. Sua orientação é verificar a situação do romance em face da realidade no momento antirrealista do romance. Nada obstante, desse modo vem a ser favorecida a prevalência da relação com o leitor por fora e em detrimento da união autor-personagem-leitor, porquanto a asserção de que a alienação se converte em meio artístico, para um tipo de romance cujo impulso é decifrar o enigma da vida externa, exige pôr em relevo além da fantasia a ambigüidade do romance como técnica de comunicação.

Assim temos o monólogo interior de Proust tomado por um lado como via determinada de linguagem que faculta ao narrador fundar um espaço interior na narração permitindo-lhe por sua vez evitar o discursivo e escapar às convenções da representação objetiva.

Por outro lado, a anulação da diferença entre o real e a descrição do imaginário que acompanha a reabsorção da distância estética como processus histórico-literário, a reabsorção da distância entre o comentário do narrador e a relação com o leitor – já detectada em Proust e completada em Kafka e em Joyce – se insinua em meio ao próprio monólogo. Isto verificando-se de tal sorte que, reabsorvendo-se em uma segunda linguagem (monologal) destilada da primeira (discursiva) e em crescimento junto com a massa de todos os que permaneceram alheios à primeira linguagem, o mundo coisista da representação torna a se apresentar à narração. Daí a conclusão de T.W. Adorno de que não há obra de arte moderna que tenha valor sem que ao mesmo tempo desfrute da dissonância e da frouxidão; sem que encarne o espanto, a perplexidade sendo desta forma, por prestarem testemunho do que experimentou o indivíduo da era liberal, que tais obras servem à liberdade.
***
Retornando neste ponto à análise mais personalista de Nathalie Sarraute temos que a ação ou elemento dramático é caracterizado pelo conceito sociológico-literário essencial da fantasia compreendendo os subterfúgios estranhos, os achados, os disfarces, os movimentos sutis mal perceptíveis, fugidios, contraditórios, evanescentes, movimentos dos frágeis temores, dos esboços de apelos tímidos e de recuos, das fugas, das sombras ligeiras que escorregam cujo jogo incessante constitui a trama invisível de todas as colorações nas relações humanas e a substância mesma que ocupa nossa vida.

Nessa autora, para quem o fato literário é acessível diretamente à experiência do leitor tomado em sua irredutibilidade humana, a defesa do exemplo de Proust passa não só pelo resgate da arte de Dostoyevski em face da supervalorização do modelo do romance de Kafka – o homo absurdus –, mas também passa pelo esclarecimento das origens deste na obra daquele.

Nessa reflexão personalista é posta em questão e é refutada a proposição de que o romance do século XX não mais teria ligação com a idéia de Proust atribuindo um valor maior ao procedimento de busca de um fundo extremo onde reside nossa impressão autêntica.

Haveria uma crise do chamado romance com orientação psicológica, supostamente ultrapassado e impossibilitado de falar ao homem moderno, inteiramente absorvido este pela e na civilização da maquinaria.

A crença nesta imagem do homem moderno nega a possibilidade de que o romance seja elaborado com base em procedimentos tidos como análise psicológica, a exemplo do monólogo interior de Proust. A convicção voltada para buscar o fundo da nossa impressão autêntica não mais encontraria referência no homem moderno, o qual então desmentiria a idéia de que existe tal fundo.

Segundo o modelo do Homo Absurdus, supostamente tratado na obra de Kafka como excluindo toda a possibilidade de impressões em um sujeito humano, o homem moderno não seria coisa alguma d’outro senão o que dele aparece ao exterior, a saber, o torpor inexpressivo e a imobilidade de seu rosto quando ele se abandona a ele mesmo não encobriria movimentos ou estados interiores, em modo tal que o tumulto do silêncio aparente notado em sua alma pelos escritores do chamado romance psicológico nada mais seria que somente silêncio.

Segundo Nathalie Sarraute, o enfoque pelo esquema do Homo Absurdus nos mostraria o substrato da consciência do homem moderno como trama ligeira de opiniões convencionadas recebidas como tais do grupo a que ele pertence. Todavia, os clichês assim repetidos, por sua vez, encobririam eles mesmos a um Nada profundo, uma quase ausência de si mesmo.

Para Sarraute, menos que uma tendência predominante nos temas literários levando a definir o romance como gênero, a ausência é sobretudo um aspecto da imagem que resume o universo simbólico de Kafka tomado nas antípodas de Dostoyevski. Mas não é tudo. Nesse enfoque pelo Homo Absurdus o elemento psicológico da consciência, o foro íntimo, a inefável intimidade consigo, fonte de tantas decepções e penas deixa de existir.

Sob o aspecto mais sociológico, Sarraute observa que a crença nessa imagem absurda do homem moderno configurou também a expectativa de uma corrente de opinião desejosa de que o romance europeu tirasse proveito das novas técnicas do cinema e fosse feito em maneira mais acessível, modesta, com a simplicidade do que nos anos cinqüenta chamou-se jovem romance americano (Steinbeck), reduzindo-se o objeto literário ao elemento puramente descritivo e à narrativa exterior, sem proveniência nas impressões de um sujeito humano.

Será em vista de esclarecer a ingenuidade da expectativa dessa corrente separando a união do autor, dos seus personagens e do leitor que Sarraute nos oferecerá suas observações sobre os procedimentos literários articulados por Dostoyevski na construção dos seus personagens.

Nossa autora visa igualmente pôr em relevo a improcedência da teoria do choque misterioso e salutar atribuído ao projetado efeito profundo no leitor ou nas supostas regiões dispersas e sem controle de uma imaginária alma sensitiva. Efeito esse que, em tal teoria do choque misterioso e salutar, resultaria de uma suposta força de penetração decorrente da opacidade mesma do universo simbólico desse tipo de romance tido por novo. Dessa forma, a presença do leitor seria reduzida, contemplado ele por uma espécie de comoção emotiva permitindo-lhe apreender de um só golpe e como num clarão o objeto literário todo, inteiro.
***

Nas contradições e inverossimilhanças de que provêm o mal estar na leitura de L’Étranger, de Albert Camus, a análise do fato literário põe em relevo por baixo da conduta insensível e indiferente de personagem a ocorrência daquele elemento do
chamado romance psicológico designado por Proust como “o fundo extremo das nossas impressões autênticas”.
***

O desenvolvimento da abordagem esclarecedora de Sarraute mostra-nos inicialmente que um romance ao qual a imagem do Homo Absurdus foi aplicada, como é o caso de L’Étranger, de Albert Camus, além de não excluir o elemento de fantasia característico do romance psicológico, pelo contrário o afirma e o exige. Mostra-nos em seqüência que o modelo de Kafka não é mais do que somente uma das vias, talvez a mais estreita e longa já inaugurada por Dostoyevski.

Da mesma maneira, o esnobismo mundano de Proust repercutindo obsessivamente em todos os seus personagens não passa de uma variedade do procedimento de Dostoyevski, o qual, enfim, veremos adiante é analisado por Sarraute como não tendo absolutamente coisa alguma a ver com uma decepcionante e abstrata exposição de motivos censurável que se toma equivocadamente como característica do romance psicológico.

Com efeito, pela abordagem personalista exercida por Nathalie Sarraute em seu ensaio de crítica nota-se na leitura de L’Étranger que o nada interior do personagem é-nos apresentado pelo procedimento clássico do monólogo interior e não por uma narrativa exterior, como seria de esperar de um romance sob o modelo do Homo Absurdus.

O estrangeiro camuniano Meursault é em relação a ele mesmo como se um outro o visse e falasse dele; “ele é tanto mais si quanto ele parece pensar menos, sentir menos, ser cada vez menos íntimo consigo” (frase citada por Maurice Blanchot, apud Sarraute, op.cit.pág.23). Revela-se “um homem cujos sentimentos e reações psicológicas que ele busca alcançar nele mesmo ele em si não os encontra: ele só encontra a visão absolutamente semelhante àquela que os outros podem ter de seus próprios comportamentos” (passagem destacada por Magny, apud Sarraute, ib.pág.23/4).

Analisando a cena do sepultamento da mãe de Mersault, nossa autora observa que, por um lado, acontece do personagem encontrar nele mesmo alguns dos pensamentos fugidios, sombrios e tímidos descobertos na fantasia do romance psicológico como “deslizando com a rapidez furtiva dos peixes”, a saber: o pensamento do prazer que lhe proporciona uma bela tarde passada no campo; o pensamento do lamento do passeio que esse enterro lhe obrigou a faltar, ou a lembrança do que ele habitualmente fazia àquela hora matinal. Por outro lado, em contrapartida, Sarraute sublinha que todo o sentimento ou pensamento tocando de perto ou de longe a sua mãe, inclusive o desgosto, parece ter sido radicalmente suprimido daquela consciência limpa e preservada: nenhuma lembrança envolvida nas impressões de infância; nenhum fio desses sentimentos que sentem escorregar neles os que se consideram bem
protegidos contra as emoções convencionais e as reminiscências literárias.

Mas a análise do fato literário que nos oferece Sarraute a respeito do romance L’Étranger, de Camus, aprofunda nas contradições e nas inverossimilhanças de que provém o mal estar provocado por esta obra. Assim, se a consciência de Meursault trai um estado de anestesia comparável ao dos que padecem “os sentimentos do vazio” e só conseguem pronunciar frases tais como “todos os meus sentimentos desapareceram…”;

… “As pessoas como as coisas, tudo me é indiferente…”; “posso fazer todos os atos, mas fazendo-os não tenho mais alegria nem pena…”; “sou uma estátua viva, me é impossível ter por alguma coisa uma sensação ou um sentimento…”. Se como dizíamos tal personagem pode acomodar este discurso patológico do vazio, Meursault revela por outra via um refinamento do gosto, uma delicadeza rara que Sarraute aprecia no estilo em que ele se exprime diferenciando-o do herói gritão de Steinbeck nas seguintes falas monólogas: “ela inclinou sem sorrir sua face ossuda e alongada…”; “eu estava um pouco perdido entre o céu azul e branco e a monotonia das cores preto viscoso
do asfalto espalhado, preto suave dos hábitos, preto laqueado do automóvel…”.

No mesmo diapasão Sarraute destaca a maneira poética de Meursault referindo-se aos jogos delicados de luz e sombra e as nuances cambiantes do céu; destaca que ele se lembra do sol transbordante que faz estremecer a paisagem bem como lembra de um aroma de noite e de flores; destaca que ele ouve uma planta elevada lentamente como uma flor nascida do silêncio.

Mostrando-nos os detalhes que retêm a atenção de Meursault, nossa autora põe em relevo o contraste entre, por um lado, a ingenuidade e a inconsciência dele ao revelar que o verdadeiro, o constante modo do homem é um “Eu não penso, Eu não tenho coisa alguma a pensar” e, por outro lado, o caráter esclarecido da advertência por ele afirmada de que todos os seres sãos desejaram mais ou menos a morte dos que amavam.

Por tal advertência, Sarraute sustenta que a tal personagem acontece de lançar algumas
pontes para as zonas interditas.

Sem dúvida, ao evidenciar as contradições e inverossimilhanças de que provêm o mal estar na leitura de L’Étranger, a análise do fato literário desenvolvida por Nathalie Sarraute é orientada para enfocar a manifestação pela qual o herói de Camus ele próprio alcança o sentimento de que, na sua fala monologa, “alguma coisa há tocado (nele)” e “derrama… todo o fruto
do (seu) coração”.

Quer dizer, Sarraute põe em relevo em Camus, por baixo da conduta insensível e indiferente de seu personagem, a ocorrência daquele elemento do chamado romance psicológico designado por Proust como “o fundo extremo das nossas impressões autênticas”. E nos apresenta as seguintes frases de Meursault: “… eu tinha o ar de ter as mãos vazias. Mas eu estava seguro de mim, seguro de tudo… seguro de minha vida e dessa morte que iria vir… eu tivera razão, eu tinha ainda razão, eu tinha sempre razão…”.

“Que me importava a morte dos outros, o amor de uma mãe, que me importavam… as
vidas que a gente escolhe, os destinos que a gente elege, posto que um só destino
devia me eleger eu mesmo e comigo os milhares de privilegiados…”. “Todo o
mundo era privilegiado… não havia que os privilegiados…”. “Os outros também
se lhes condenará um dia”(L’Étranger, apud Sarraute, op.cit, pp.25 a 29) . É o fim do mal-estar, exclama nossa autora. Essa libertação do herói de Camus pela tomada de consciência do reencontro em foro íntimo de seu destino é igualmente a libertação do leitor atento.

Desta forma, a caracterização do tipo literário de tal personagem pode enfim ser posta em relevo, bem esclarecido o mal-entendido igualmente refutado por Sarraute em considerar Meursault o protótipo europeu do homem novo imaginário debulhado do elemento psicológico e apreendido por uma descrição feita unicamente do exterior que, a exemplo do herói do chamado jovem romance americano personificado em Steinbeck esperava-se nele visualizar –como houvera desejado Maurice Blanchot.

Para Nathalie Sarraute, o personagem Meursault, “um jovem empregado tão simples e tão rude” revela uma atitude que, embora pudesse lembrar em certos momentos “o negativismo cabeçudo de uma criança enfadada”, significava uma tomada de partido resoluta e altiva, “uma recusa desesperada e lúcida”, “um exemplo e talvez uma lição”.

Comparável aos verdadeiros intelectuais, Sarraute arrola os traços que o caracterizam, seguintes:
(a)– o cultivo da sensação pura, exercido com frénésie voluntária; (b) – seu egoísmo
muito consciente, fruto de certa experiência trágica que ele reportou graças a (c) –
sua sensibilidade excepcional; (d) – um sentimento agudo e constante do nada.
Desta forma, nossa autora conclui esta análise do fato literário afirmando a
proximidade do “L’Étranger”, de Albert Camus, ao “L’immoraliste”, de
André Gide.
***

Sem dúvida, essa análise de Nathalie Sarraute desdobra claramente uma orientação sociológica levando à explicação especificamente literária do por que se buscou um modelo para o romance na imagem do Homo Absurdus, esclarecendo estar essa busca intimamente em correlação com o interesse de desenvolvimento de um tipo de romance associado às técnicas do cinema. Se na primeira parte de seu ensaio esta autora examina e refuta a possibilidade de aplicação daquela imagem ao célebre e consagrado romance de Camus, na segunda parte nos apresentará igualmente o exame e a contestação de que a imagem do Homo Absurdus tal como tirada da obra de Franz Kafka seja contraposta a Dostoyevski.

A fantasia é um conceito sociológico essencial. Sem uma apreciação detida e cuidadosa em que se recorre à experiência vivida ou à experiência refletida, à experiência própria ou à de outro,
reconhecendo os pensamentos fugidios, os sentimentos sutis e dificilmente perceptíveis, contraditórios, jamais um leitor poderia alcançar ao menos uma ínfima parte do que a ação dramática em Dostoyevski revelou. Há exagero em pretender-se descrever do exterior
o objeto literário e acreditar ao leitor uma suposta extraordinária capacidade intuitiva, uma ilusão ou sensação de reviver nele a ação, ao mesmo tempo em que se priva o personagem de toda a capacidade interior, tal como representado na refutada teoria de um choque
elevando uma suposta alma sensível.

***

©2008 by Jacob (J.) Lumier

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