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Obras e Projeto de Jacob (J.) Lumier: Reencontrando a História como Mensagem.

September 5, 2006
 

DESCRIÇÃO DA NONA POSTAGEM

 

 Sobre a Produção Leituras do Século XX

http://www.leiturasjlumierautor.pro.br

 

– Nona Parte

 

 Categorias: estudo crítico, sociologia.

 

 

Palavras-chave:   sistema de freios e contrapesos, alienação,

Democracia industrial, pluralismo.

 

 

OBRAS E PROJETO DE JACOB (J.) LUMIER…

         NONA POSTAGEM:

Reencontrando a história como mensagem .

 

 

VER NESTA NONA POSTAGEM:

 

## ### – TEXTO DO ARTIGO DE CULTURA DE J.LUMIER

DATADO EM MARÇO DE 1992 E INTITULADO

 DEMOCRACIA E SOBERANIA SOCIAL:

 UMA REFLEXÃO A PARTIR DA DECLARAÇÃO DOS DIREITOS SOCIAIS.

· (republicado neste website com algumas correções e precisões indispensáveis, mas sem alteração, embora o autor já disponha de nova expressão melhor elaborada nos seus ensaios apresentados neste website, no âmbito dos quais o texto que segue deve ser lido. Na composição original aqui respeitada, este artigo foi acrescido da "Declaração dos Direitos Sociais” divulgada em NOVA YORK em l944,

que se encontrará no final do texto que segue).

· INCLUINDO OS SEGUINTES TÓPICOS

· – EMENTA;

· -PARTE I;

· -PARTE II.


 

………………….

………………………………………………………………………………………..

· Dados desta edição em Arquivo Word/Office 2003:

· · Margens: · Superior-3,5cm · Esquerda-3 cm · Inferior-3 cm · Direita-2,5cm · Estatísticas: · Páginas-29 · Palavras-9036 · Parágrafos-149 · Linhas-1092

· · Entre linhas-simples · Fonte: arial 12.

·  

· TEXTO DO ARTIGO DE CULTURA DE J.LUMIER

DATADO EM 1992 INTITULADO

DEMOCRACIA E SOBERANIA SOCIAL: UMA REFLEXÃO A PARTIR DA DECLARAÇÃO DOS DIREITOS SOCIAIS.

EMENTA:

· A presente comunicação é um exercício de pluralismo sociológico, como disciplina da produção intelectual, fundada na descoberta da realidade social Constitui o resultado precário de uma tentativa pessoal de aplicação do “hiperempirismo dialético” ao estudo das formas de alienação e seus desdobramentos nos conflitos sociais. O trabalho feito é inacabado e consiste na elaboração condensada e provisória da fórmula descritiva particular dos procedimentos de intermediação pelo reconhecimento coletivo, observados no esforço de formação de nossa sociedade e no seu “sistema de freios e contrapesos”, visando reunir subsídios para

a democratização industrial.

·  PARTE I:

· O aprofundamento de requerido conhecimento político impõe, para fazer frente ao desafio da democracia real, uma postura decididamente antidogmática, desprovida do preconceito teológico cultivado pelo neokantismo e o culturalismo abstrato (Max WEBER e seguidores), capaz de avançar para além das falsas crenças e propiciar a diferenciação do Direito e da Moral. De nada adianta insistir aqui nas abordagens ideológicas, cujas aptidões não se prestam para isolar as superstições. Embora seja equivocada a presunção de neutralidade científica, é bem possível e de todo desejável identificar e controlar as petições de interesses, as aspirações e os demais coeficientes práticos ligados à produção intelectual. Fala-se muito, para começar, em edificar “um poder soberano autônomo”, mas deixa-se em silêncio o conformismo ao dogma do “antagonismo irreconciliável” entre “lo popular” e o Estado. Da mesma maneira, fala-se em avançar na “transição para a democracia moderna”, mas se preserva o conformismo à suposta contradição entre Estado e Sociedade civil. As superstições restam, todavia intocadas. Inalterada a confiança em fórmulas ineficazes, com apego a contradições artificiais. Enquanto isso, a problemática sociológica das obras de civilização a realizar está a carecer de um tratamento mais pragmático, no qual se visualize a colaboração entre o conhecimento, o Direito e a Moral, como fatos sociais diferenciados, levando a processos operativos realmente favoráveis à liberdade humana. No fundo, é o critério desta última que parece não ter a voz que merece, tanto que os impreteríveis conflitos sociais são representados como situações próprias ao sistema capitalista, a liberdade humana não passando da impenetrável “necessidade”. Para a constatação de que a sociedade brasileira carece de autonomia frente a frente com o Estado, é imposta a conclusão apressada de que, pouco importando as formas de sociabilidade, nada mais restaria à nossa sociedade senão esperar que “a inflação das contradições”, por um lado, e os “movimentos populares”, por outro lado, venham fazer com que o Estado cumpra as funções sociais e ofereça garantia efetiva às obras de civilização. Por que as coisas devem ser assim não se sabe ao certo. Ninguém diz por que a questão da sociedade deve permanecer subordinada às estratégias de empolgação do Estado. Ao mesmo tempo, continua-se a agir como se nenhuma dimensão de profundidade houvesse no esforço humano, ora favorecido pela pluralidade dos grupos, a gerar oposição, brechas e oportunidades ao fluxo renovado da ação, que não aguarda o beneplácito do pensamento conceitual. Parece até que se deseja perpetuar o mito da “revolução pelo Estado”, em que se presta culto à figura deste como agente de um desenvolvimento que ninguém sabe mais que fim levou. Poderia até ser desejável que as coisas fossem dessa maneira, caso aí não se subentendesse a identificação forçada entre ideologia e alienação, fonte de embaraços para a clarificação da noção de progresso social. Se assim fosse, a sociedade ficaria reduzida à esfera dos interesses particulares, imbuída no “é dando que se recebe”, para aludir à versão oportunista do idolatrado “do ut des”, com base no qual tem centro a ordem do “a cada um o que se lhe deve”, tão ao gosto da interpretação que a burguesia se faz da justiça, como nos Códigos, paraíso fantasioso dos credores impiedosos. Por sua vez, essa ideologia, ao promover a concupiscência e o direito do mais forte, é confundida a uma mistificada alienação, cuja misteriosa operação estaria a indicar não apenas ser o mundo destinado à culpabilidade, mas também que, exatamente por essa via, seria dada e acessível a salvação. Tanto a lei positiva passaria a ter o seu conceito reduzido, como a reciprocidade seria substituída por uma velha analogia contemplativa, e o esquema do “Estado-fator-de-equilíbrio” em face dos cobiçosos, estaria interrompido, desprovido de objeto. Quando não, a tendência é acreditar que a formação da sociedade passaria por uma espécie de confronto maniqueísta de ideologias, suposto explicar assim os conflitos sociais, reduzidos a simples representações e esquemas mentais, a esquecer que as interpretações já estão lá quando se verifica o esforço da nossa sociedade em busca da soberania social. É a falsa idéia de que a sociedade é presa da alienação por força da ideologia do Estado capitalista e que a repetida alienação é um fato de exclusivo domínio mental. Por contra, se, à hora presente, é admitido o esforço da nossa sociedade, então as interpretações já estão lá, e não será bastante repeti-las ou projetá-las – ainda que seja de utilidade. E se já estão lá, o esquematismo é insuficiente, pois que estarão elas imiscuídas umas nas outras, a constituírem questões de fatos, assumidas pelos sujeitos sociais e assim relativizadas. Se a realidade social é descoberta como a dimensão de profundidade do esforço de nossa sociedade, como celebração da troca, como realização do trabalho, sendo intermediária entre a criação coletiva e o sistema das coisas, então, para simplificar, há reconciliação prévia ao alcance da experiência humana, e os termos contrários se encontram em presença tensiva, observados no plano das atitudes coletivas reais, como configurações de ambiências sociais – nas amplitudes concretas das quais as interpretações cruzadas dão lugar à compreensão-explicação, dão lugar à operação de integração das manifestações particulares sensíveis nos planos de conjunto das totalidades apreendidas intuitivamente. Daí, antes de serem juízos de valor ou petições de interesses, as interpretações ligam-se à formação mesma dos sujeitos sociais, em reciprocidade de perspectivas, e concorrem para a trama desdogmatizante em que se diferenciam as funções sociais. Aliás, é pela capacidade de interpretarem as funções sociais que as classes, grupos e formas de sociabilidade chegam às atitudes, não somente recalcadas, mas inovadoras e criadoras, no limiar da soberania social. Antes de reduzir-se a uma invenção da produção intelectual, a compreensão-explicação é critério de efetividade da realização coletiva do trabalho, a efetividade da troca propriamente dita como totalidade das funções sociais, tanto que a questão da soberania social se verifica lá onde há interpretação dessa totalidade, verdadeiro modo de operar da nossa sociedade, o seu sistema em processamento, sistema de freios e contrapesos entre os planos mais cristalizados, levando a aberturas para o espontâneo e a criação. Nossa sociedade é, pois, a “totalidade dos fatos”, em processamento nas relações entre determinismos sociais e liberdade humana, segundo a feliz fórmula de Georges GURVITCH, que, verificadas a posteriori, estabelecem uma relação de anterioridade em face do “curso dos acontecimentos” (saber histórico), relação cujas fórmulas, ao desocultarem as brechas da liberdade humana escondidas nesse “curso”, permitem a relativização e a dialetização das possibilidades estruturais – o que favorece a superação do apriorismo e de qualquer síntese arbitrária que identifique liberdade e necessidade e confunda determinismo com necessidade lógica e metafísica ou, ainda, confunda liberdade com criação ex nihilo. Tal é o fato “ético-concreto”, criação de ordem nos universos reais existentes, contemplado na cultura literária do realismo como expressão do espírito intercomunicado nas obras de civilização, efetivando-se nas regulamentações ou controles sociais. Tal é a faticidade que dá significação prática ao conhecimento e ao simbolismo das referidas obras, tornando configurados os quadros sociais reais. Sem dúvida, a descoberta da realidade social, como esfera intermediária constringente, introduziu na cultura literária a percepção de que o trabalho é consciência da liberdade e que a intervenção desta nos tempos sociais, sem cessar, é experimentada nesse fluxo incontido e renovado da ação livre e clarividente quebrando as estruturas. A vocação da sociologia do século XX, como projeto de cultura literária desenvolvido por autores de expressão francesa, não se limita somente a promover a abertura ou o cruzamento do marxismo -hoje superado pelos fatos- como fora proposto pelos fenomenólogos, mas, antes, consiste em levar até o fim o espírito prometeico, relativizar o relativismo, dialetizar a dialética, com base em tendências reais, sobretudo mostrando que, para a precedência da ação/criação em face do pensamento conceitual, corresponde a prioridade do pensamento primitivo, supra-conceitual, a visão humana, resolvendo-se a ligação do teórico e do pragmático mediante “o retorno das idéias à ação”, para além de qualquer apriorismo. No fundo, trata-se de evidenciar a reconciliação prévia, mostrar que, para além de sua expressão simbólica no “Discurso Evangélico”, a visão humana já é efetivamente reconhecida, sendo o que aparece primeiro na marcha através das sombras para a luz, princípio mesmo de experiência humana, impenitente, a qual, ao operar a negação do conceitual, gera os procedimentos de intermediação. A visão humana, ao se efetuar como reconhecimento coletivo das obras de civilização a realizar, máxima identidade a que pode chegar o humano em sua recusa de identificação e de separação, é indissociável da atitude coletiva real da nossa sociedade. Cabendo notar que, por essa dialética do ato e da obra, a visão humana, como reconhecimento, constitui a condição sem a qual restaria inacessível a oportunidade de participação no fluxo da ação/criação coletiva, ora em aproveitamento nas tentativas de realização das obras de civilização, muito ameaçadas pela independização da técnica, com a tecnologia, fruto da indústria da guerra. Não resta dúvida de que, junto a essa abordagem de realismo, se conjuga o pensamento etno-sociológico, levando para além do preconceito teológico, que subordina a vida moral à religião, tanto que o primeiro conflito entre os princípios de transcendência e de imanência no espírito humano gerou-se, como ensinam os mestres da sociologia, pela oposição do Sagrado e do mito do Maná nas sociedades arcaicas. Por isso, o Maná, apesar do elemento sobrenatural que lhe é inerente, é uma das raízes da laicidade. A laicização da Magia como obra de civilização nas sociedades arcaicas, tornando-se Técnica, por um lado, e Moralidade autônoma, por outro lado, produz-se quando deixamos de recear as forças que manipulamos, ao passo que o Sagrado e a Religião excluem qualquer laicização; esta pode apenas limitar o seu campo de ação, mas sem o transformar relativamente ao seu âmago. Não haverá de surpreender, pois, que, nas sociedades arcaicas, a Magia, como obra de civilização (curas, previsões, benefícios diversos), seja encontrada na base do Direito, como implicado na troca, o qual, mais do que a primeira, cujo exercício pode ser também individual, baseia-se sempre num reconhecimento coletivo, sem o qual a correspondência ou a fusão parcial não pode ser estabelecida entre as obrigações de uns e as pretensões de outros, que constitui seu domínio. Aliás, o Direito é coletivo tanto pelo seu exercício quanto por seu conteúdo, de maneira que “onde existe uma sociedade existe o Direito”, o qual acompanha muitas vezes a moralidade, como a sua sombra e o seu reflexo, desempenhando junto dela o papel de abrigo, de envoltório, de garantia, e facilitando o seu funcionamento. Mas, dado que a vida jurídica é mais afeta aos tabus e às sanções do que a vida moral, as respectivas repercussões da Magia e da Religião sobre o Direito mostram-se particularmente entrecruzadas. Da mesma maneira, é admitida uma dialética entre Magia e Religião em sua heterogeneidade, levando à formação do Estado e da realeza arcaicos, como organização especial de coação, como dominação, o que foi feito através de um desvio do poder coletivo do Sagrado, do poder social comum com fundamento religioso, não em proveito da própria Magia ou do Direito individual – como preconizaram alguns-, mas em benefício do poder político, levando, em particular, à constituição do poder real, o que, ademais, é considerado válido não somente para os tipos de sociedades consideradas arcaicas, mas também para as teocracias carismáticas, como a primeira expressão das sociedades históricas. #####

· PARTE II:

· Deixando de lado as formulações da análise etno-sociológica, a abordagem em realismo da nossa sociedade deixa ver que o aprofundamento da democratização, seus mecanismos, sua eficácia e seus limites, têm pré-requisitos de domínio técnico, de valor ético, e de ordem propriamente política, cuja formulação, no entanto, está para além da velha questão do populismo brasileiro, tanto quanto ultrapassa os quadros da ideologia reformista, ainda que todos sejam convocados para barrar a ascenção da tecnocracia dirigista e fascistizante, cúmplice da recessão. A cogitada estratégia da democratização industrial vem, quando vier, não para deslocar quem se julga ter posições definitivamente tomadas,

mas, sobretudo para ampliar e potencializar a resistência aos males que estão a vitimar. E isso notadamente porque vitimados não são apenas as classes subalternas ou as pessoas desafortunadas e desclassificadas, ora abandonadas à adversidade e à miséria, massacradas pela exploração capitalista, mas na mesma categoria se inclui a substantiva realidade social, ela própria, ora excessivamente autonomizada ou exageradamente cristalizada, infortunadamente, fixada acima das atitudes coletivas reais, a perder a configuração ou a ambiência do reconhecimento. Tal é a situação do modelo de sociedade política que dispúnhamos, há muito tornado vítima de ideologias falazes,e, por isso, ameaçado de alienação, a desnaturá-lo como criação coletiva da práxis humana e social, cuja realidade histórica é bem documentada no capítulo da Independência. A par das imagens simbólicas ideais, aqui postas entre parêntesis com base nos procedimentos operativos do “hiperempirismo dialético”, o grau de cristalização a que chegou esse vitimado modelo social, através da violência e da institucionalização da ordem estatal, através da chamada política brasileira, enfim; sua hipertrofia patente no conformismo ou na politização generalizada de tudo o que se faz ou se produz em nossa sociedade, em que pese, nas últimas décadas, o continuado enfraquecimento do Estado em sua autoridade e prestígio -independente da concentração do poder no aparato burocrático militar- faz sem dúvida ressaltar, como um augúrio fatídico, o perverso e catastrófico conflito da fetíchica esfera “codificada” da representação de interesses -por si só, motor da moderna troca competitiva- com os ideais coletivos da vida civil, a ela originalmente ligados e por ela impulsionados. E isso só por um lado, já que, por outro lado, o conflito é com as produtivas funções sociais, as quais, em decorrência mostram-se cada vez menos desempenhadas e mais desejadas, diretamente afetadas que são pela conjugação da irrefreada pressão pecuniária e do mistificado hábito de tudo barganhar. Além disso, o fenômeno de externalização do referido modelo social leva não somente à dominação e à sujeição que ora ameaçam as unidades coletivas e os indivíduos participantes – seja através dos estereótipos de consumo, a elevarem desmesuradamente o prestígio e a renda da perdulária classe ociosa, seja mediante a hipóstase de uma aliança exploradora, pactuada entre a oligarquia industrial e financeira e a tecnocracia presunçosa, a bloquear a desalienação do trabalho -, mas também esconde cada vez menos, a desrealização do valorizado esforço pela democratização, por um lado, e, por outro lado, oculta, também cada vez menos, a despersonalização dos dirigentes, sob a influência dos conglomerados empresariais, instrumentos da irresponsabilidade organizada dos que exercem a dominância na esfera econômica. A questão que diante disso se coloca, indaga se a retórica da “Abertura”, pautada na suposta aliança entre progressista e liberais, contribuiu ou não para este alienante e negativo estado de coisas. Não que se pretenda condenar aqui a retórica, mas tudo leva a crer que a apropriação indevida do esforço de nossa sociedade pelas falsas justificações da ideologia individualista-possessiva, dita “neoliberal”, com a imposição da crença fictícia em uma sociedade exclusivista, imagem simbólica de um fantasioso paraíso para proprietários rendeiros, tenha conseguido consumar-se contra os controles da democratização, sem ter sido detectada ou prevista, devido ao efeito diversionista daquela retórica de condomínio, sobretudo por que a ela se acrescentou a subseqüente ocultação da oposição recorrente levando à reforma social, verificada nos termos do liberalismo e da democracia, oposição essa que, apesar de imprescindível à democratização, tanto quanto o é a ação operária que lhe deu efetividade, não chegou a ser refletida nem honrada pelos atores , como brecha de intervenção da liberdade humana, dado a carência de um novo conhecimento político e, de toda a evidência, já está sublimada, difusa nos afazeres partidários. Seja como for, o fato é que a sublimação da oposição recorrente, comprometendo toda a recusa ao statu quo, associada, bem entendido, à disseminação da recessão provocada que nos oprime, e à plutocracia, por um outro aspecto leva à desqualificação das lideranças reformadoras, religiosas ou laicas, reformistas ou revolucionárias, e. mais grave, leva à desmoralização da classe operária -que acreditou- ocasionando, além disso, a subseqüente redução indesejável do mundo do trabalho, como figura da compreensão-explicação, seguindo-se à atual desvalorização e neutralização das regulamentações autônomas, imprescindíveis ao sindicalismo e à ação operária, garantias hoje acessíveis de extensão da vida civil e de realização das obras de civilização. Afinal, que nós, os participantes, nos vejamos na contingência de apelar ao beneplácito e à complacência dos políticos profissionais, alheios à situação, para que os assim classificados “sem-teto”, os desalojados e os despejados mantenham a esperança de algum dia construir, por suas próprias mãos e músculos, algumas casas para a moradia, nos dá bem a medida da retração forçada a que chegou o nosso “poder popular”. Não que a racionalidade do processo tenha sido reduzida aos padrões restritivos clássicos da velha república burguesa e de seu abusado Estado de inspiração bonapartista; nem , muito menos, que tenhamos aceito a necessidade suposta de nos conformarmos às determinações possibilistas, às etapas calculadas da ponderada transição para a chamada democracia moderna. Não, não é isso o que explica a nossa atual perda de posição e prestígio. Nem mesmo há uma resposta direta para isso, sobretudo porque houve perda dos horizontes e, portanto, trata-se de uma questão que implica a racionalidade realmente experimentada ao longo dos séculos modernos, como a operação integradora, como a compreensão-explicação levando à percepção e ao conhecimento formulado, explícito e teórico. Neste marco, tudo o que se pode fazer é um ensaio de clarificação, a fim de livrar o uso dessa noção de “racionalidade” das ingerências apriorísticas limitando-lhe a verificação, por parte dos homens de ação, sempre a cata de dirigir os determinismos sociais. Para tanto, não basta aceitar a democratização como momento recorrente da desalienação, em que o mundo do trabalho e o conjunto das regulamentações autônomas, geradas justamente pelas relações do trabalho em aprofundamento, são elevados à esfera das regulamentações estatais, constituindo a reforma social e legislativa propriamente dita; tampouco bastará desdobrar a polêmica sobre o modelo de sociedade política, essa criação em atividade guiando as condutas coletivas da vida civil mediante a representação de interesses, seja para a participação no plano das funções sociais que se diferenciam na comunidade urbano-industrial, por um lado, seja, por outro lado, para a participação no plano dos aparelhos organizados que são atuantes nas trocas competitivas. Não, não será suficiente essa linha de reflexão, ainda que possa ser útil. Será preciso bem mais para querer purificar a noção de racionalidade, em vista de torná-la efetivamente pragmática. É preciso começar por deixar de lado a “inflação das antinomias” e ir mais além da hipótese de que a democratização é fundada em supostas contradições entre Estado e Sociedade civil, ainda que as mesmas sejam tidas como decorrentes da acertadamente verificada “profundização” do capitalismo na América Latina. Da mesma maneira, é preciso deixar de lado a “contracultura” e ir mais além da retórica autenticamente populista, que atribui a um poder popular soberano e alternativo todo o avanço democrático, ainda que, bem entendido, a ideologia revolucionária na sua circunstância histórica não seja falaciosa e, pelo contrário, tenha papel na produção do conhecimento político, tanto quanto tem a ideologia reformista, pesando-lhes a falta de perspicácia. Além disso, se o que está em jogo é a questão da prioridade, do que aparece primeiro na marcha através das sombras para a luz, implicando a seleção do que tem preferência em face de a reabsorção do Estado em nossa sociedade, o esforço cujo tempo de realização deve ser preferido à vez de um outro -reforma do sistema de governo ou implantação de uma central dos movimentos populares- o avanço real será pouco, sem dúvida, muito pouco enquanto for empregado unicamente ou exclusivamente o raciocínio formalista, que liga a ordem do conhecimento a fatores redutivos da experiência humana, a encobrir, notadamente, a brecha deixada pela sublimação da oposição renovadora, tanto mais que, por esta via atributiva de valores, se está a um passo do indesejado vanguardismo. Por contra, tudo está a indicar que, sendo a descoberta da realidade social uma conquista reveladora da incessante intervenção da liberdade humana e uma descoberta introdutora de uma relação de anterioridade aos fatos, a integração do curso dos acontecimentos, por sua vez, pode ser conseguida independentemente daquele raciocínio formalista, sem necessidade de recorrer à atribuição analítica de uma “possibilidade objetiva” não dialetizada, chame-se democracia moderna ou democracia populista, incluindo nesses termos todo o cabedal da análise dialética subentendida. A determinação do curso dos acontecimentos por uma pauta de transição, sobretudo a precedência forçada do juízo de valor, levam a uma integração não-corroborativa, em que, por um expediente artificial, os acontecimentos são inseridos em planos históricos formais, de intenção normativa, conformes à maneira das condutas preestabelecidas e hierarquizadas nos estatutos-programas, carentes de reciprocidade. Em decorrência disso, fica na sombra a totalidade interpretada das funções sociais, a trama desdogmatizante fortalecendo o alcance transpessoal das relações com outrem, como a significação prática que faz acontecer em realidade os acontecimentos. Pode-se dizer que, além dessa perda, a orientação para o vanguardismo deixa escapar o fato de que a brecha aberta com a sublimação da oposição do liberalismo e da democracia suscita a oportunidade para a implantação da estratégia da democratização industrial, como tentativa de colaboração da democracia e do socialismo. Só assim, ao admitirmos uma tendência desalienadora real, impulsionada em escala das sociedades globais, para a implantação de um modelo social de reorganização mais voltado à colaboração, de acordo com o reconhecimento coletivo e contrário à ascenção dos donos da burocracia, podemos, então, levantar a questão ora tornada urgente de saber, não o por que do fracasso ressentido, mas , sim a maneira , o como se faz para que o processamento da integração não permanece entre as mãos dos elitistas, não permaneça sob o jugo do modelo social impositivo, de dominação, utilizado à feição dos grupos de interesses e de pressão patrocinados pela oligarquia industrial e financeira , e seus parceiros tecnocratas, detentores do controle da propriedade industrial, ora quase exclusivamente privado, seja rural ou urbana. Situação esta tanto mais alarmante quanto se observa, por um lado, o prestígio crescente dos tecnocratas no âmbito dos investidores e junto a esse estrato típico da burguesia que é a classe ociosa, esta com ascendência normativa sobre o padrão de respeitabilidade social, a beneficiar-se, assim, duplamente, ante o fato de ter-lhe a sociedade transferido o excedente de produção; por outro lado, vê-se que o prestígio crescente dos tecnocratas favorece uma mentalidade insensata em alto grau, centrada no esquema do aprendiz de feiticeiro, já que a tecnocracia é sabidamente incapaz de controlar para a civilização as forças tecnológicas que estimula e idolatra se auto-humilhando e promovendo a sujeição dos homens livres, em face dos engenhos. Além disso, como se não bastasse, os tecnocratas, esses executivos do alto escalão, a locupletarem-se das competências requeridas pelas grandes organizações, estejam elas no setor público ou pontifiquem no planejamento privado, são agentes praticamente inalcançáveis, protegidos que estão detrás dos muros das despersonalizadas holding companies, nacionais ou internacionalizadas, a circundarem as cidades livres e a submeterem, pelo conformismo,

a megalópole brasileira.

 

 

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